ENTREVISTA

melicias - LG

Padre Vítor Melícias – Confissões de um Franciscano

Gosta da vida e tem dela uma apreciação positiva, não obstante reconhecer as enormes chagas que pustulam a que apelida de casa comum da Humanidade. Reconhece tentações, mas a elas contrapõe as convicções; deleita-se com uma canja de pombo mas farta-se e regozija-se se lhe servirem um bacalhau com grão; priva com os poderosos mas fá-lo para advogar as causas dos desfavorecidos; ama Cristo mas convive prazenteiramente com Maomé ou Sidarta (vulgo buda).
O padre Vítor Melícias é um aristocrata, no bom sentido, ressalve-se aqui alguma contradição, da Igre-ja. É detentor de uma formação académica exemplar, domina vários idiomas (deixa amiúde zonzos os des-tinatários das suas asserções em latim) e causa engulhos aos mais acérrimos e por vezes acéfalos detractores da Igreja, ao postular noções éticas e morais, tanto ao nível dos princípios como do mais terreno pragma-tismo, que tão depressa vão ao arrepio dos mais tradicionais cânones eclesiásticos como não se enquadram nas ideias preconcebidas que o vulgacho atribui aos sacerdotes.

Esta entrevista é um excerto de uma outra, bem mais ampla na abrangência, que será editada em livro nas próximas semanas.

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Que recordações tem dos tempos de infância, antes de se lhe colocar a bifurcação da sua vida que o levaria a optar pelo hábito fran-ciscano?
Claro que me recordo das minhas origens e da terra onde nasci, que necessariamente me influenciaram no per-curso de vida que posteriormente segui. Aliás, isso acontece com qualquer um de nós, pois esses lugares e ambiên-cias em que nascemos e nos quais começamos a despertar para a vida marcam e definem os valores e o carácter de cada um. Foi o que aconteceu comigo, nado e criado numa família numerosa e profundamente cristã, recheada de irmãos, primos e tios, avós e padrinhos.
Era um ambiente de grande comunidade, de solidariedade recíproca mesmo, e de confraternização salutar en-tre todos, nas ocasiões especiais que, por uma ou outra razão, nos reuniam periodicamente: nas festas, nas vindimas, no pão-por-deus, enfim, nos baptizados, nos casamentos e nos funerais.
Vivi, pois, num ambiente de típica ruralidade, de grande fidelidade à terra, nossa mãe e nossa irmã, como a tra-tava S. Francisco, mas onde de facto a vida e a alimentação eram muito precárias: uma sardinha, quando havia, para uns tantos, um pão, uma sopa e as muito apreciadas ‘azeitónicas’. Não se pode dizer que houvesse propriamente fome, até porque as pessoas entreajudavam-se, mas vivia-se frugalmente, com muitas dificuldades e carências.
A entreajuda fazia parte dos hábitos da província, como acontecia aquando da matança do porco, em que a carne acabava quase no próprio dia, pois era distribuída pelos demais, que quando, por sua vez, também matavam um animal repartiam-no da mesmo forma connosco e com todos os outros. De qualquer forma, a carne estava re-servada para os dias de festa, como acontecia quando se comia galinha – isso então é que era festa!... Hoje desde-nhamos o frango, tão fartos que estamos dele. Havia até um provérbio que dizia: «Quando um pobre come galinha, é por doença do pobre ou da galinha».
Eram tempos difíceis, se bem que, ainda assim, melhores do que os que se viviam então por essa Europa em guerra...
Pois era. Aquela família de nove irmãos vivia no tempo da guerra, quando o salário do meu pai julgo que ron-daria os 18$00. Não era de estranhar que na mercearia local o ‘rol’ dos fiados fosse uma instituição imprescindível, pois um trabalhador rural só no final da semana é que tinha condições para pagar... Também por isso, a solidarieda-de entre vizinhos era um facto. Recordo a ‘ti Maria José Lourenço, que nos dava um pão de milho que era excelen-te, mas à época o pão de milho era o dos pobres. Por isso, quando tínhamos pão de trigo colocávamo-lo entre duas fatias do de milho, à laia de conduto!...
O ambiente que se vivia na província era bastante conservador, com grande influência por parte dos senhores locais e dos próprios eclesiásticos. Ia à missa quando jovem ou tentava furtar-se às obrigações dominicais?
O meu pai tinha trabalhado em casa de uns proprietários alentejanos, em Estremoz, por isso a cultura alenteja-na por ele apreendida estava patente em nossa casa, nos comeres, nas histórias que se contavam e nos medos das almas do outro mundo. Mas éramos uma família religiosa, mais por parte da minha mãe. Havia o ritual da missa de domingo, a que todos íamos, mas o meu pai não era grande frequentador da igreja. Um dia, recentemente, ao visitá-lo vinha ele da capela, virou-se para mim e disse-me: «Qualquer dia ainda fico santo, tanto rezo agora o que não rezei em novo!...»
Esse pragmatismo, decorrente do apreço pelas coisas simples e verdadeiras que o contacto com a terra proporciona, esteve também na sua opção por uma teologia aplicada, em vez de, por exemplo, usar as suas duas licenciaturas em dissertações mais ou menos abstrac-tas tão ao gosto dos doutores da Igreja?
Apesar de reconhecer que cada coisa tem o seu lugar e que devemos respeitar as opções que cada um faz ao longo da vida, efectivamente sinto-me atraído e mais próximo das doutrinas que têm a ver com os direitos humanos e com o progresso das ideias e das sociedades do que de esquemas teológicos teóricos.
Daí que frequentemente insista nos valores que foram bandeira de uma certa modernidade, ou seja a liberdade, a igualdade e a fraternidade, apesar das conotações que lhes tentaram atribuir, fruto da violência que também man-chou a Revolução Francesa e do anticlericalismo que lhe esteve próximo. No entanto, são esses mesmos valores que dão substância à Declaração Universal dos Direitos do Homem, assim como à mensagem dimanada por João XXIII e pelo Concílio Vaticano II.
Pensou em enveredar por outros caminhos ou a vocação religiosa foi algo que sempre esteve presente desde tenra idade?
Os meus irmãos diziam que eu era manhoso, porque estava sempre a tentar escapar-me ao trabalho. Quando o meu pai saía connosco, para trabalharmos no campo, eu queixava-me de dores de barriga e ele, com pena, manda-va-me embora – eles é que o dizem não sei se será verdade. Mais tarde, na galhofa, até me diziam que eu tinha ido para padre para não trabalhar. Mesmo se assim fosse, a vida deu-me a volta e eu trabalho bastante, nas diversas áre-as em que estou empenhado.
Na juventude fui marcado por Aníbal Barca, o Cartaginês, e logo de seguida S. Francisco de Assis, o que, pelas suas diversas personalidades, me levou a desejar encetar uma carreira na advocacia, por forma a poder ajudar as pessoas mais necessitadas de justiça. De facto, acabei por tirar duas licenciaturas, em Direito civil e canónico, apesar de nunca ter exercido.
Mas gosto muito de ser padre e mesmo já hoje, com a minha idade, sinto a mesma alegria do que quando fui ordenado. Apesar de alguns desânimos ou dúvidas, reconheço que foi das melhores opções que tomei na vida e com a qual me sinto particularmente feliz.
Agora, se tivesse de escolher outra vocação, não sei ao certo por qual optaria. Talvez tivesse ido para Torres Vedras para trás de um balcão, ser comerciante, fazer algo de diferente do que os outros na minha terra, ‘condena-dos’ a empunhar uma enxada ao longo da vida. Mas como era muito bom aluno, continuar a estudar estava inscrito no meu destino, ao mesmo tempo que não me saía da cabeça a vontade de um dia vir a ser padre.
Alturas houve em que questionei, tive dúvidas, pensei mesmo em abandonar, aí pelos meus 23 anos, e mesmo antes. Uma vez, quando vinha a casa de férias, num daqueles ronceiros comboios que demoravam eternidades – devia ter uns 14 anos –, acompanhado de colegas de seminário, todos vestidos de preto, com chapeuzinho e tudo (ao melhor estilo dos ‘padrecas’, como nos chamavam), um ferroviário quarentão, de fato-macaco azul fuliginoso, meteu-se connosco chamando-nos exploradores, que os padres eram uns inúteis, não faziam nada, comiam o suor do povo, eram uns chulos – o que eu então desconhecia completamente o que fosse – , etc. Aquele episódio ficou-me na memória, levando-me a pensar que se ser padre era mesmo aquilo, então eu não queria ser, mas com o apro-fundar da vocação, que vinha de trás, a questão foi ultrapassada.

Na mundovisão possível hoje em dia, qual pensa ser a posição que um país como Portugal pode assumir, sabendo-se as limitações que temos, em termos de influência internacional, de capacidade técnica, de dimensão e escala demográficas e territoriais que são as que temos?
Penso que poderemos ser, com sustentação moral, arautos dos perigos que o mundo enfrenta neste terceiro milénio. E, porque não temos dimensão para nos acusarem de propósitos menos transparentes, podemos juntar a nossa voz àqueles que reclamam a reforma dos sistemas económicos, financeiros, políticos e culturais.
Parafraseando um pouco, desde logo na senda de um José Régio que bradava a quem o quisesse ouvir ‘Não vou por aí!...’, eu não pugno pela utopia, mas, como Jean Monet, sou moderadamente optimista, ou seja determina-do. Mas se o fosse isso corresponderia apenas a que, como dizia Saramago, ‘as coisas utópicas só têm de esperar mais um bocadinho’.
Tem noção de que sai fora do estereótipo que as pessoas fazem de um franciscano, frade ainda por cima, tendo em conta as suas opiniões sobre o mundo e a Igreja?
Sei que tenho de ter cuidados em não escandalizar nem ferir os demais, apesar de por vezes, quando me pro-nuncio sobre este ou aquele assunto, poder chocar algumas pessoas, o que de todo não é minha intenção, mas o que simultaneamente vem testemunhar a diversidade multicolorida de pontos de vista que se pode ter sobre um mesmo tema.
Nunca o incomodou o facto de ter sido considerado como um padre-banqueiro, devido a ter estado ligado, nomeadamente, ao Mon-tepio e a outras instituições que movimentam avultadas verbas, apesar de, enquanto franciscano, estar obrigado ao voto de pobreza?
Não, e precisamente por isso, já que o dinheiro que movimento ou movimentei não é meu. Mas não sou dono de bens nem eles são para meu proveito; tão-só, como S. Francisco dizia, os irmão que sabem trabalhar devem fazê-lo fiel e devotamente: se são carpinteiros que exerçam, se são taxistas de igual modo, se sabem ensinar que sejam professores, se souberem gerir uma empresa façam-no, apesar de não ser sua nem para seu proveito, não por ga-nância mas para multiplicar os talentos que deverão ser colocados ao serviço de quem mais precisa.
Aliás, o próprio hábito franciscano tem uma origem muito prática e não necessariamente conotada com um despojamento ermi-tão...?
Os franciscanos são mendicantes, e entre estes os mais rigorosos, para quem a propriedade pessoal não existe. Mas quanto ao hábito, a história diz que S. Francisco era um burguês e vestia-se em conformidade. Só que, quando renunciou enfiou pela cabeça abaixo um saco dos camponeses, que lhe ficava largueirão, pelo que terá pegado no que arranjou à mão, uma corda, e com ela atou o burel cujos três nós, hoje, representam os três votos franciscanos de obediência, pobreza e castidade.
Tem fama de ser uma pessoa que destoa, em certa medida, da imagem que se atribui, por princípio, à Igreja, perdoa tudo, tem uma visão muito liberal mesmo perante as questões mais difíceis...?
Sabe, uma das grande virtudes da Igreja é a maternidade, ter um coração compreensivo e tolerante, à imagem de Deus, que é um pai misericordioso.
A propósito, recordo-me de uma história que se contava em Itália, acerca de um padre que até era o confessor da universidade onde eu estudava, e que a dada altura foi chamado à cúria por ter fama de ser um mãos-largas. Na ocasião, o cardeal ter-lhe-á dito: «Ó padre Marcelo, dizem-me que absolve tudo, perdoa todos», ao que ele terá re-torquido que já estava a entender porque tanta gente, em particular da cúria, fazia questão de se confessar a ele!...
Certamente que, com um sorriso, o monsenhor tê-lo-á mandado embora e aconselhado a manter-se assim, uma boa pessoas com as mãos e o perdão largos.
Uma coisa é ser insensível à irresponsabilidade, pois o pecado é algo que responsabiliza quem o comete. Não se pode simplesmente dizer ‘água-vai!’, mas também não se pode ser tão rigoroso ao ponto de se ver o pecado onde ele não existe, condenando com uma autoridade que se não tem e não sendo misericordioso como se deve ser.
Nós, portugueses, até pela nossa cultura cristã, construída ao longo dos séculos, vamos no sentido do perdão e da compreensão mais do que apontar o pecado.
Sem inverter posições, portanto não querendo que se me confesse, não resisto a perguntar: mesmo enquanto clérigo, franciscano, com a sua experiência de vida, ainda peca muito?
Ah, pois peco, então não? Se uma pessoa não for suficientemente humana para pecar então é porque nem para ser humano serve, deve é ir directamente para anjo... Mas, naturalmente, e devido às suas próprias limitações e imperfeições, o ser humano é contraditório e imperfeito, mesmo que não seja no estrito sentido religioso. Agimos por vezes como dizia o poeta: «Vejo o melhor mas sigo o pior».
A essência do cristianismo vai mesmo no sentido de que pecamos, é uma realidade, mas não devemos viver esma-gados pelo pecado, caso contrário é o próprio pecado que fica a ganhar. Somos permanentemente convidados a soer-guer-nos e a emendar aquilo que for possível reparar, contudo sem a ilusão de que com a promessa, ainda que sincera, de não reincidirmos possamos vir a cumpri-la.
Por outro lado, as pessoas têm a tendência de ‘coisificar’ excessivamente o pecado, em vez de se aterem à atitude que está por trás e na sua génese. Dar um beijo pode ser uma atitude linda, como também pode ser a traição de um Ju-das.
Mas, pronto, já me confessei: realmente peco, queria pecar menos e esforço-me por isso, mas nem por isso se sinta mais à vontade para também o fazer!...

Para não insistirmos em questões conceptuais e para cairmos no concreto, como lê o propalado problema, ocorrido em França, mas que poderia ter sido na Alemanha ou noutro país com importantes comunidades muçulmanas, do uso do chador (aquele véu que oculta o rosto das mulheres) nas escolas gaulesas?
Isso tem de ser resolvido com um critério superior de tolerância, não tem de ser pelos princípios da localização dos problemas. O Estado francês é laico, e faz muito bem em sê-lo, logo tem de manter uma equidistância em rela-ção às diferentes religiões que prevalecem no seu solo. Não tem de se pronunciar sobre o assunto nem de fazer opções em matéria religiosa, mas a sociedade sim, pois não é laica mas pluralista. Desta forma, o Estado tem é de garantir que a sociedade viva em paz o seu pluralismo religioso.
Por isso, e já que a França está integrada na União Europeia (onde poderão ocorrer problemas idênticos), é preciso que a um nível superior sejam encontradas regras e formas de coexistência pacífica, que permitam, depois, que localmente cada município ou escola possa resolver esses problemas. Mais uma vez, vai exigir um grande inves-timento em pedagogia, com incidência local. Pelos princípios da subsidiariedade e da proximidade esta convivência entre diferentes religiões tem de ser encontrada.
Mas tem de ser feito com carácter de urgência, porque estamos a falar de milhões de pessoas que chegam e tra-zem essas suas especificidades culturais reforçadas pelas convicções religiosas e, a não ser resolvido o assunto, pode originar conflitos escusados.
Não podemos aplicar a máxima de que cuios regio eios religio, ou seja o chefe da religião de uma região é que diz qual a que prevalece, porque o mundo é pluri-religioso, pelo que tem de haver formas concretas de convivência no respeito mútuo. Este aspecto tem particular incidência em França, porque aí o Estado assumiu-se como o grande modelo e garante da laicidade. Esperemos que isso não venha a tornar-se numa religião a contrario nem que se pre-conize a instalação de pequenos guetos, muçulmano, cristão ou laico. A cidadania tem de ter repercussões globais, regionais e locais, pois um dos pilares da União Europeia baseia-se na integração das populações deslocalizadas, seja por razões económicas, sociais ou políticas.
Por isso, quanto à questão dos símbolos e costumes religiosos nas escolas, que se tem levantado recentemente em França...?
Quase diria que, em vez de se tirar das salas de aula o crucifixo, deveriam aí colocar também o crescente, a estrela de David e por aí fora. Fazer disto uma guerra santa é que é mau porque, ao lutar-se tanto pela ausência de símbolos, pode estar a exaltar-se o agnosticismo ou a arreligiosidade, já que ao ensinar os fenómenos físicos, a bele-za artística, a dimensão sexual, a interacção com a Natureza, esquece-se de uma coisa de soberana importância, que é a dimensão do transcendente e da dimensão religiosa do Homem.
O Estado é um instrumento comum que os homens criaram para estimular e coordenar as diversas dimensões do ser humano. Não pode impor que práticas deve um cristão seguir nem a melhor data para se observar o Rama-dão. Tem é de propiciar espaços para que todas as religiões, em liberdade, possam exprimir-se e desenvolver-se.

Como vê a crise de vocações que a Igreja católica atravessa, se bem que já tenha sido pior mas que, dado o nível etário de grande parte dos actuais sacerdotes, não pressagia tempos vindouros mais recheados de material humano?
Desde logo, e para atalhar ao problema, penso que há necessidade de a Igreja adaptar os seus valores às novas formas de comunicação, já que as respostas encontradas há quatro décadas no Concílio Vaticano II não tiveram expressão prática nos tempos que se lhe seguiram. Talvez seja necessário um novo concílio, não tanto para procurar novas respostas para as situações que entretanto foram surgindo mas, em particular, para que as então encontradas sejam alvo de uma osmose nos espíritos e nas práticas da Igreja, o que a meu ver ainda não se processou. Foram criadas expectativas e feitas promessas que ainda não vimos concretizarem-se.
No caso específico do nosso país, penso que também seria necessário incutir-lhe um maior espírito de moder-nidade, pois por cá os ventos do Vaticano II, na década de 60, não chegaram com suficiente força por forma a mu-dar as mentalidades, que são ainda bastante tradicionalistas. O mesmo se poderá dizer em relação ao sector laico no seio da Igreja, que não soube assumir as responsabilidades que lhe foram atribuídas, porventura com culpas para o próprio clero.

A sempiterna questão do celibato e da ordenação de mulheres também estará a contribuir para a falta de vocações no seio da Igreja, que a está a envelhecer?
Não creio que a obrigatoriedade do celibato seja a principal razão para a falta de vocações nos seminários cató-licos, pois não creio que os das igrejas não católicas estejam a abarrotar. Mas a questão do celibato é um aspecto da vivência sacerdotal que estará sempre em cima da mesa até que, em meu entender inevitavelmente, se decida por aquilo que venho há muito preconizando, ou seja o carácter opcional desse compromisso. E não falo em causa própria, pois não estou minimamente interessado em contrair matrimónio, desde logo pela idade e porque sou fra-de, para quem essa hipótese não se coloca, e porque se se colocasse creio que teria dificuldade em me adaptar.
Repare-se que esta questão só surgiu a partir do ano 300 d C, o que dá a entender que os apóstolos, os padres e os bispos, até então, podiam casar. Essa obrigatoriedade terá começado no concílio de Elvira, uma região hoje junto a Sevilha, e disseminou-se não uniformemente por toda a Europa. E mesmo hoje, o povo, nas sua maliciosa sabe-doria, ainda recita aquela rima alentejana: «Não há amor como o primeiro/Nem flor como o azinho/Nem filho como o de padre/Que ao pai chama padrinho»!...
De qualquer forma, outras questões inquinam a adaptação da Igreja aos tempos modernos, como a ordenação de mulheres, os métodos canonicamente subscritos de planeamento familiar, etc. Se, por um lado, acredito que to-dos os homens devem ter direito a contrair matrimónio, por outro defendo o celibato das comunidades religiosas, mas apenas enquanto opção individual, por forma a que não se continue a malbaratar tantos excelentes sacerdotes que deixaram a Igreja mas que estão dispostos a regressarem imediatamente assim que seja permitido o exercício de sacerdotes casados.
Para já, existindo limitações impostas que obrigam ao celibato, quem não se achar capaz de o professar deverá escolher uma outra forma de acção social e religiosa.
De igual modo para as mulheres, que têm a mesma dignidade e os mesmos direitos que o homem. O estatuto que a mulher felizmente foi adquirindo, até por vezes graças à influência positiva da Igreja, permite-nos já hoje ver as vantagens da sua actuação no serviço das comunidades religiosas, por exemplo, na Igreja anglicana, onde exer-cem quer o presbiteriado quer o episcopado, pelo que a Igreja católica não deveria fechar a porta a esta hipótese, pelo menos no médio prazo.
Repugna-lhe, enquanto franciscano e ser humano, a ostensiva detenção de propriedades – palácios, obras de arte, jóias, participações em multinacionais – que tem sido uma das críticas apontadas à Igreja, ao longo dos tempos, meios frequentemente postos ao serviço do proselitismo em vez do despojamento que a deveria caracterizar?
O que me choca é que existam bens, nomeadamente patrimoniais, e que eles não sejam tratados e preservados, pois são património de toda a Humanidade. Se o seu detentor utiliza esses bens para explorar os demais, para seu próprio gozo ou para criar injustiças, é altamente reprovável, seja o Estado, os privados ou a Igreja. Agora, se essa apropriação redunda em benefício de todos, julgo que é positivo e é nesse sentido que aplaudo o cuidado com que a Igreja preserva arquivos históricos, museus, obras de arte, monumentos, etc., pois tem essa obrigação e se não o conseguir fazer que alguém o faça, seja a UNESCO seja o Estado, que o não faz, porque manter e preservar esse património é muito caro e não rende praticamente nada, em termos financeiros.
Mas isso não é aplicável à participação em empresas, indústrias e outras actividades de contornos pouco claros, para não dizer mesmo pouco cristãos...
Faz o que pode fazer o Estado, os cidadãos ou qualquer outra entidade. Na economia moderna, em que a pro-dução de resultados ou mais-valias decorre da possibilidade de se fazer essas aplicações em conjunto e não isolada-mente, o que a Igreja tem de fazer é juntar os bens de que disponha aos do Estado ou dos privados, para produzir bens que lhe tragam rendimentos com os quais poderá exercer a sua função de solidariedade e de promoção social. Agora, se proceder a aplicações moralmente indevidas, é evidente que está a proceder tão mal como qualquer outra entidade.
Não se pode dizer que investir na indústria do armamento ou em fábricas de droga ou noutra qualquer coisa congénere é mau se a Igreja o faz mas se são os privados ou os Estados já não faz mal – as coisas são ou não más per si e isso aplica-se a todos os que com elas lidem.
Mas, no caso da Igreja os patamares de exigência moral devem sempre pautar-se e estarem confinados aos mais altos padrões, o que nem sempre é expectável no mundo empresarial...
Isso seria o mesmo que partir do princípio de que o mal pode ser feito por quem não tenha padrões morais elevados. Tanta obrigação de não praticar e promover o mal têm o indivíduo, o Estado ou a Igreja, todos de igual modo. Pode-se é compreender melhor que quem não partilha os mesmos valores o faça, mas é de igual modo re-provável para todos.
De uma forma por muitos considerada restrita, foi desvendado há alguns anos o chamado terceiro segredo de Fátima, não revelando, con-tudo, nada do que durante décadas foi alimentado pela crença popular. Mas, enfim, o que é Fátima para si?
Fátima, para mim, é antes de mais um espaço de encontro religioso, de cada um com Deus, com a divindade em que cada um crê, e um espaço de partilha, de fé. Foi-se construindo a partir do fenómeno inicial da aparição de Nossa Senhora e que posteriormente se foi fazendo à medida em que as pessoas aí acorreram, praticando a sua fé.
Fátima, e todas as fátimas que existem no mundo, enquanto produto espontâneo da fé e nunca da exploração, é um fenómeno bem-vindo e positivo porque o Homem também é fé e partilha de crenças. Se Fátima é, frequen-temente, designada o altar do mundo, ainda bem que o é, porque o mundo precisa de altares, mas o altar não é mais do que uma mesa comum onde se partilhem a boa vontade, a fé e a esperança, com todos os que nos rodeiam. Que Fátima é um lugar onde a fé pode ser vivida e sentida é-o. Quanto à forma como as coisas se concretizaram não tenho a certeza.
No entanto, para alguns, ao longo do tempo, foi criticado o excesso de devoção mariana de que Fátima se terá revestido. Não é de alguma maneira redutor limitar aquele movimento de crentes devotos de Maria, em vez de ser um trampolim para formas mais abran-gentes de religiosidade?
No mundo há espaço para tudo e para todos. Daí que haja pessoas com maior sensibilidade mariana como ou-tras mais abertas às manifestações cristológicas, como é o meu caso, mais direccionadas para outras centralidades religiosas. Há espaço para todos e se em Fátima há uma maior sensibilidade mariana, deve assumi-la naturalmente, sem que isso seja obrigatório e exclusivo. Um cristão que não vá a Fátima não deixa de ser um bom cristão, não é qualquer espécie de dogma nem deve sê-lo.
Muito frontalmente e sem subterfúgios: acredita que houve, em 1917, uma aparição da mãe de Jesus naquele lugar de Fátima, que dialogou com três crianças, como se narra hoje em dia?
Não sei. Não acredito nem desacredito, não sei!... E não me é essencial que seja verdade ou não pois, enquanto espaço de fé e de devoção, o que Fátima é hoje não depende de ter sido aquilo que se diz que foi. É, sim, um fenó-meno religioso que respeito e que acabou por ter uma enorme implantação, cujas origens, as circunstâncias feno-menais e outras, terão sofrido a influência das condições culturais de uma dada época. O respeito que se deve ter, neste caso como noutros, tanto no catolicismo como noutras confissões, é mais pela crença e nas pessoas que a têm do que naquilo em que especificamente se acredita. A fé é um acto de adesão pessoal e intransmissível...



Autor: Luís Guimarães
Data: 05/1/9



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