ENTREVISTA

Bandeira

Entrevista com Paco Bandeira

Dispensa apresentações, porque já todos o conhecem.
Faz música há mais de 30 anos e há melodias que nunca sairão das nossas memórias.

JI - Esta antologia que agora lança é essencialmente dos seus êxitos ou tem algum inédito?

PB - Esta antologia contém algumas das minhas melhores músicas. Tudo acaba por ser, circunstâncias que nos acontecem na vida e há uns tempos fiz uns trabalhos e realizei alguns contactos com a Farol, e entretanto a editora propôs-me fazer este trabalho e eu gostei da ideia que resultou muito bem e que está correr igualmente bem.


JI - O seu nome é Francisco Veredas Bandeiras. De onde veio a ideia de adoptar o nome artístico de Paco?

PB – Eu sou de Elvas, e comecei a trabalhar na rádio Extremadura/Badajoz como locutor, e em Espanha há muito poucos Franciscos, porque todos os Franciscos são chamados de Pacos, Panchos ou Curros.
Por hábito todos os meus colegas da rádio me começaram a chamar Paco, e eu acabei por me habituar e foi assim que um dia quando dei por mim já era Paco Bandeira. Tiraram-me o S do Bandeiras, porque em Espanha também é natural singularizar as pessoas, porque isso é dar-lhes importância. Então acabei por ficar Paco bandeira, apesar da minha família ter ascendência Espanhola, e só existir uma família Bandeiras, e essa família está ligada a uma outra família que é a do Martim Moniz, daí a família ser Bandeiras.
Hoje em dia muito pouca gente me chama Francisco. Entre os meus familiares, a minha irmã mais velha chama-me chiquinho, e os meus irmãos também.


JI – Há alguma situação que tenha vivido em palco que relembre com mais saudosismo?

PB – Eu tenho grandes alegrias em palco, aliás eu às vezes até me emociono, porque a maneira como as pessoas me tratam por vezes toca-me, e há qualquer coisa dentro de mim que não consigo controlar, mas lembro-me mais das situações caricatas.
Houve uma vez que estava com a Amália em Toronto no Royal Thompson Hall. Estávamos a actuar, e era a minha vez de cantar, e na primeira fila estava uma pessoa que apontava para mim, e eu continuava a cantar e fui muito aplaudido. O Royal Thompson Hall, é uma sala que leva cerca de 12 mil pessoas, as quais nos rodeavam, porque a sala é toda em redondo.
Mais tarde descobri, e foi até a própria Amália que estava ao me lado a rir-se, e quando eu olho para ver o que se passava ela diz-me “tens a braguilha aberta” (risos).
Outra situação também caricata foi quando estive na Bulgária, num Festival que costuma lá acontecer e o Fernando Tordo tinha ido comigo, não como cantor mas como Jornalista. Aquilo lá era um pouco pasmaceira, mas à noite resolvemos fazer uma grande festa, juntámos uns amigos (isto no dia anterior à minha participação nesse Festival onde eu apresentei o “É por isso que eu vivo”). Entretanto não dormi porque nós tínhamos uma hora para entrar no hotel, e depois dessa hora já não entrava ninguém. Como nós ultrapassamos em muito o limite, ficámos todos até de manhã a beber uns copos, e a cantar e fui com uma directa para o Festival.
Quando cheguei ao recinto onde ia actuar, estava cansadíssimo, sem memória quase nenhuma, e quando entrei no palco para cantar a cantiga, esqueci-me da letra, e então improvisei uma letra em que só disse disparates (risos). No fim ganhei o prémio do melhor poema e de interpretação (risos). Esta vida às vezes tem coisas estranhas, e até engraçadas mas tudo acaba por acabar em bem.


JI - O que é que sente quando as pessoas trauteiam alguns dos seus maiores sucessos como “A Minha Cidade” que ficou mais conhecida como Oh Elvas, Oh Elvas, ou a “Ternura dos 40”?

PB – Sinto-me muito bem porque tenho quase a certeza que a minha música nunca prejudicou ninguém.
A minha música nunca deixou ninguém pior do que estava e é muito bonito perceber que a maioria das pessoas que trauteia ou assobia minha música, são pessoas úteis, pessoas da terra. São as pessoas que moldam o barro, o ferro, a madeira, que fazem o pão, são os homens que andam nas obras.
Já tem acontecido estar em sítios onde as pessoas nem reparam que eu estou, e oiço as pessoas a assobiar a minha música. Sem dúvida isso faz-me sentir muito bem. Nem é vaidoso que me sinto, isso teriam eles o direito de ser porque fazem coisas válidas. Os músicos, os poetas, os escritores, esses fazem coisas bonitas. Acima de tudo isto é um grande cumprimento que me fazem.
Todas as pessoas são válidas e em cada pessoa há um universo. Ver as pessoas a irem para o trabalho bem cedo, aquele cheirinho de Lisboa de manhã, e depois vê-las voltar, essa é a maior imagem poética que tenho em mim.


JI - Considera as suas músicas intemporais?

PB – Sim, penso que se pode dizer isso.
São intemporais como são os retratos. Claro que o nosso idioma vai-se alterando porque é normal mudar, mesmo esteticamente as coisas mudam, mas os assuntos ficam e as realidades mantêm-se. Nós podemos vestir de uma ou de outra forma, mas somos nós na mesma. A realidade mantém-se e o que eu canto são as coisas da realidade, e visto-as segundo os meus princípios.
Acho que me sinto feliz por, ao fim destes anos, não sentir vergonha das canções que fiz. O ridículo pode-me bater à porta por outras razões, mas em relação ás músicas eu ainda hoje as subscrevo.


JI - O Paco também se estreou na Televisão. Gostou da experiência de fazer televisão?

PB – Bom, eu ainda continuo a fazer televisão. Tenho o meu programa na mesma. O “Diversidades”, vai voltar agora no dia 23 de Novembro.
Fizemos uma paragem no Verão, porque os nossos compatriotas por esse mundo fora também têm outras actividades, porque havia o Campeonato do Mundo de Futebol, e porque os assuntos que tratamos no programa, são para quando as pessoas tiverem a disponibilidade para nos ver, e para quando estão a trabalhar e voltam para as suas casas depois de um dia árduo.
Fazer televisão é algo que eu adoro e que é muito gratificante. É a melhor coisa que eu tenho neste momento para além da minha filha pequenina.
No “Diversidades”, eu tenho a oportunidade de falar com todas as pessoas que conheço e com algumas que nunca vi.
Falar com pessoas em todo o mundo, é lindo. Ouvir pessoas que estão na Gronelândia, na Nova Zelândia, na Austrália, no Malaui, e noutros sítios que eu nem imagino, e de repente elas ligarem a dizer que estão a ver o meu programa é simplesmente fantástico. Existe uma interactividade tal que me faz estar ansioso, pelas Quintas-Feiras às 9 da noite para poder abrir a janela e começar a falar com o mundo


JI - Sei que também que foi Tesoureiro da Sociedade Portuguesa de Autores. Pensa de alguma forma ter contribuído para que a música Portuguesa fosse vista de outra forma?

PB – Eu lutei muito por isso. Participei na legislação. Participei na lei 12/81 que deu origem à obrigatoriedade de passagem de uma certa quota de música portuguesa nas rádios que não foi cumprida, e foi até assumido por um Director de uma rádio do estado que não cumpriria essa lei.
Estamos a falar de uma lei do estado aprovada na Assembleia da República.
Noutros países como na Espanha, quando se passa a fronteira, só se ouve música espanhola na rádio, em França é a mesma coisas, porque eles têm orgulho na sua música.
Eu não tenho nada contra os estrangeiros, aliás há cantores de que gosto imenso, mas acho que é importante dedicarmos tempos a nós e à nossa música.
Acima de tudo, nós não seremos nada sem nós.
Na Sociedade Portuguesa de Autores, penso que fiz alguma coisa, como por exemplo criei uma rádio que acabou por nunca emitir, para que os autores portugueses tivessem um espaço, para mostrar o seu próprio trabalho.
Acabaram por me expulsar de lá e tive de ir para tribunal para poder voltar. Tenho realmente pena que tudo isto tenha acontecido porque penso que só se perdeu com isso.


JI - E trabalhos novos? Pensa em editar algum inédito?

PB – Penso que agora há razão para fazer novos trabalhos. Agora há coisas novas para cantar e assuntos novos para explorar.
Quando acabar agora esta minha azáfama, vou meditar e fazer um novo trabalho.
Por enquanto são ainda pequenos apontamentos, nada em concreto.


JI - Para finalizar, gostaria que me fizesse um balanço de mais de 30 anos de carreira e de canções?

PB – Sim, são já mais ou menos 40 anos de carreira, e mesmo antes disso já cantava na tropa, e já tinha gravado um disco no Porto.
O Balanço é extremamente positivo.
Sou descendente de uma família de pessoas rurais, de uma cidade periférica longínqua, que fica a muitos quilómetros de Lisboa e que fica na fronteira com Badajoz, e quem nascia de famílias pobres só tinha algumas saídas que era ser toureiro, ou ser cantor (risos), porque naquele tempo era assim mesmo.
Hoje é muito diferente e estou aqui a louvar-me e a todos os portugueses, porque hoje em dia existem oportunidades de escolha que não havia naquela altura.
Eu estava condenado a ser um homem do campo. Seria feliz, mas não teria viajado tanto quanto viajei, não tinha tido oportunidade de conhecer tantas pessoas importantes como conheci, e isso é uma riqueza enorme, não teria tantos amigos como tenho hoje e possivelmente não viveria tão bem como hoje vivo.
Tudo isto, eu devo às pessoas que ouvem a minha música e me levam no coração e fizeram de mim o que sou hoje.
Para terminar penso que olhando para o meu trabalho, fiz muito menos mal do que qualquer ministro (risos).

JI – Muito Obrigada


Foto: Vítor Costa








Autor: Sandra Adonis
Data: 17 de Outubro 2006



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