ENTREVISTA

peixoto

José Luis Peixoto em discurso directo -- Fomos megalómanos com os estádios !

No olhar saltita-lhe a timidez, o miúdo que sonhou ser escritor e que afinal já o é. No branco que cobre a folha encontra o seu relvado, onde delicia multidões. Sob o signo de padrinho de luxo: o Nobel Saramago – Figo da escrita...

José Luís Peixoto. Escritor de profissão, ele é, para muitos, a grande promessa da literatura portuguesa. Entrar no enredo do desporto e em tudo o que gravita à sua volta foi o desafio que lhe propusemos. Ele não se fez rogado e agarrou-o. Com as duas mãos. “Pratiquei atletismo dos 6 até aos 17 anos”, começa por exclamar, sorriso cravado nas feições, prosseguindo com desenvoltura, “o meu forte era a velocidade, mas pratiquei quase tudo dentro do Atletismo, desde salto em altura, salto em comprimento, lançamento do dardo... Mas no que eu era melhor era na velocidade! Naquela altura as corridas eram de 80 e 60 metros e cheguei a ir aos Nacionais algumas vezes e a vencer algumas provas a nível regional. Corria pelo clube da Casa do Povo da minha terra, Galveias. Se se perdeu algum talento no desporto? Sinceramente não creio”, responde, pintando as palavras com o riso, “aliás o desporto é algo que está mais ou menos adiado na minha vida mas que mais tarde ou mais cedo vai ter de voltar a ela...” Flúi a conversa e alargam-se os planos de análise. Aparece lado essencial do desporto. “O desporto ensinou-me bastante. Foi através da prática desportiva que eu aprendi a chegar ao meu limite e a tentar superá-lo. Esse é um ensinamento que ainda hoje continuo a aplicar em outras áreas. O desporto é uma escola de rigor, de trabalho, de persistência, de compreensão de que nada se alcança sem esforço...Há alguns desportistas que para mim são verdadeiros heróis, pelo esforço, pelo espírito de sacrifício...” Do desporto em abstracto para o rei dos desportos. “Sempre gostei muito de jogar futebol, como qualquer miúdo, mas nunca cheguei a ser federado. Jogava em torneios de futebol de 5 com os amigos, onde tínhamos uma disputa forte mas sempre sadia. Acima de tudo o que mais me fascinava naquilo era o convívio, a entreajuda. É claro que era melhor ganhar do que perder mas não era grande mal se perdesse. Ficava um pouco chateado mas passava rapidamente...” Saltando para fora do campo, veste a capa do observador. “Parece-me que os campeonatos de há uns anos para cá têm sido cada vez mais disputados. Há cada vez menos aquele conjunto de grandes equipas inquestionáveis que nunca perdiam. Hoje já não é assim. Os grandes jogam com os pequenos e não sabe qual será o resultado. se são os grandes que estão mais pequenos ou se são os pequenos que estão maiores? Essa é difícil...”, responde bem-humorado, “mas quero acreditar que são os pequenos que estão maiores, que têm havido uma subida do nível dessas equipas embora nesta época isso não tenha sido bem assim já que o campeão já está encontrado há algum tempo”, diz, não escondendo alguma insatisfação. Percebe-se porquê. “O meu clube é o Sport Lisboa e Benfica. Muito sinceramente acho que o Benfica apesar de tudo este ano não esteve tão mal quanto isso. Então a recta final do campeonato tem sido boa. Só foi pena não ter começado mais cedo! Não posso dizer que esteja insatisfeito com a prestação da equipa. O Camacho? Tenho a melhor opinião possível! A viragem no futebol do Benfica esta época deve-se muito a ele!”, exulta, juntando depois a sua voz à de todos aqueles que pedem a permanência do espanhol em Portugal, “pessoalmente ficaria extremamente satisfeito se soubesse que ele para o ano continuaria! Penso que nesta altura ele é a pessoa certa no lugar certo! Aprecio imenso a disciplina que ele trouxe à equipa e que é essencial quando estamos a falar de um grupo. É importante que um grupo de trabalho não seja somente uma soma de indivíduos mas que seja realmente um grupo e penso que ele consegue criar isso. Um treinador tem de ter um pouco de sociólogo, de forma a conseguir gerir as personalidades diferentes de cada um...” Viram-se as agulhas. Na baila está agora o português da camisola 20. “Sem dúvida que se o Simão saísse seria uma grande perda mas muito mau seria se numa equipa houvessem jogadores insubstituíveis. É claro que é um grande jogador, já há muito tempo que o admiro e penso que ele é neste momento o melhor jogador do Benfica. Aliás até já o admirava quando jogava no Sporting! Seria uma pena se ele saísse...” Das quatro linhas para a gestão. Para o dinheiro que corre em rios de grande caudal. “Há um irrealismo muito grande em tudo aquilo que é o futebol mas não só em Portugal, também na Europa e no Mundo. Não sei exactamente como – aliás penso que ninguém sabe – este não é o caminho. respeito os jogadores de futebol mas parece-me que os vencimentos de alguns deles são irreais e acabam até por ser algo de ofensivo para as outras pessoas. Mas também é difícil arranjar soluções para isso. Se os vencimentos são assim tão altos também é porque existem condições para que assim seja. Teria de haver uma mudança estrutural. Não sentiria qualquer prazer por saber que os jogadores ganhavam menos, só tenho pena é que o resto das pessoas não ganhe o mesmo!” A conversa atingira contornos que remetiam para as massas que os dirigem. José Luís foge ao tema. “O dirigismo sempre foi um aspecto que nunca me disse nada. Nunca me interessou! O que me interessa é assistir aos jogos! Dá-se demasiada importância aos dirigentes! Eu ainda sou do tempo em que isso não era assunto! Nós devemos escolher muito bem aquilo a que vamos dar atenção, porque as coisas a que damos atenção são as coisas que vão começar a fazer parte da nossa vida. Apesar de pensar que os clubes deviam ser mais democráticos do que o que são, o que me desagrada é que se façam de certas questões verdadeiros problemas nacionais! Há um empolamento excessivo! Se há lobbies, jogadas escuras no futebol? Se não há, pelo menos toda a gente sente que há e eu nesse aspecto sou igual a todas as outras pessoas! Essa ideia é por si só negativa! As suspeitas são levantadas e isso é grave, descredibiliza o futebol que tem infelizmente, aos olhos de muita gente, uma imagem negativa, o que é uma pena, pois é um desporto que oferece um espectáculo bastante cativante...Até não pedia que houvesse verdade no futebol, bastava que existissem boas intenções e a imagem que passa não é essa, sobretudo ao nível do dirigismo...Infelizmente muitas vezes coloca-se o Futebol num patamar muito alto, como se fosse a coisa mais importante do mundo. E não é! O Futebol tem o seu lugar mas esse lugar não é de certeza na abertura dos Telejornais! O Futebol é um espectáculo e os espectáculos servem às vezes para isso, para colorir a vida. não pode é tornar-se um assunto de vida ou morte. É algo de agradável e não de fundamental! A nossa vida não pode depender das vitórias ou derrotas do nosso clube!”A questão tem andado na boca dos portugueses e não podia deixar de ser colocada: será que os milhões que estão a ser gastos com o Euro 2004 estão a ser bem gastos? Resposta pronta, sem hesitações. “É claro que não posso estar de acordo! Estão a fazer-se mais estádios do que aqueles que eram absolutamente necessários e isso num país como o nosso que atravessa muitas dificuldades em tantas áreas é muito mau! Não sendo contra a candidatura de Portugal à organização do Europeu, penso que devíamos ter proposto aquilo que estava dentro das nossas possibilidades. Haveriam outros aspectos que deveriam ser privilegiados. Inclusivamente bastaria a não-construcção de um dos estádios para fazer tanta coisa em tantas áreas! Se olharmos para as coisas dessa forma é que conseguimos perceber bem como isto funciona. Não era necessário sermos tão megalómanos!” Dentro do relvado, prefere não elevar demasiado a fasquia. “Acredito que podemos chegar ao título europeu mas no último Mundial custou muito aos portugueses encarar a má prestação da selecção porque partiram com expectativas demasiado altas. Por isso para o Europeu eu vou preferir preparar-me para o pior mas esperar o melhor!”
Benfiquista de corpo e alma, consegue ainda assim admitir que o FC Porto é actualmente a melhor equipa portuguesa. Nem que o faça com alguma dificuldade. Como se um nó lhe atasse a garganta. “O Porto está a fazer um excelente campeonato e por mérito próprio. Custa-me um bocado dizer que é a melhor equipa, mas é verdade...O melhor jogador português? Ainda é o Figo. Aliás ainda é o melhor do mundo! Ele é um exemplo em tudo. Só através de muito esforço conseguiu chegar onde está! Ele é o melhor sobre vários pontos de vista. Não só é o melhor praticante, mas também é um jogador que tem um Fair-Play muito grande, que não é um agressivo, calmo nas alturas certas, em que existe uma pressão enorme. Até enquanto homem já passou por coisas muito difíceis como com certeza foi o caso da transferência do Barcelona para o Real Madrid, em que se sentiu vítima de tanta animosidade por parte de uma região inteira. No entanto ele ultrapassou isso tudo com uma classe profissional e humana muito grande e hoje é um ícone mundial! Vamos a todo o lado e quando dizemos Portugal ouvimos Figo!”
Um escritor é um observador. José Luís não é excepção. A vertente humana que envolve a atmosfera de um estádio em dias de jogo fascina-o. Embora prefira o conforto do sofá. “Prefiro assistir a jogos de futebol em casa! Porquê? Por um lado as repetições às vezes fazem falta quando estamos num estádio. Depois fica-se com uma noção mais próxima daquilo que é o jogo. No estádio tudo depende do sitio onde se está, e por vezes fica-se com uma sensação daquilo que foi o jogo que é bastante diferente do que o que de facto aconteceu. O que mais me fascina em assistir os jogos ao vivo é a ideia de que estou lá! Sente-se que de alguma maneira se pode influenciar aquilo que está a acontecer. Há uma sensação de comunhão...” A poesia parece entrar na conversa. Será o desporto fonte de onde brotam palavras? Inspiração. “Embora nunca tenha escrito directamente sobre desporto, não foram poucas as vezes em que surgiram ideias a partir de estar assistir a alguma prova desportiva. O desporto é muitas vezes criativo, existe uma espontaneidade que cria momentos mágicos. Artísticos. O desporto pode ser uma arte! O que me inspira para escrever é o que conheço, o que presencio, e o desporto já me inspirou algumas vezes. Só se pode escrever sobre aquilo que se conhece...Se tivesse de escrever um poema a alguma figura do desporto a quem seria? Ao Eusébio!”, responde, o olhar cantando a rebeldia, “ele proporcionou tantos momentos mágicos! É um jogador de referência. Era a ele que eu escreveria alguma coisa...”
Mestre das palavras, sente-se como peixe na água em jogo de sinónimos. “Futebol? Espectáculo. Vitória? Setúbal! Derrota? Frustração. Glória? Benfica. Figo? Vitória. Benfica? Futebol. Desporto? Saúde.” Fim de um jogo. Início de outro. “Que livro aconselharia o Pinto da Costa a ler? Os cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Marquez! Já não devem faltar muitos anos para ele chegar aos cem anos à frente do Porto! E a impressão que fica é que foram anos de solidão. Ele é A figura. É O dirigente. E daí alguma solidão naquela cadeira do poder! O Manuel Vilarinho? Não há coincidências, da Margarida Rebelo Pinto. O José Mourinho? Os Maias, do Eça do Queiroz. O José António Camacho? Guerra e paz, do Tolstoi. É um livro muito grande e dessa forma enquanto o lia ia ficando por cá. Podia ser que para o ano ainda cá estivesse!” Estava estabelecido o paralelo. O desporto e a escrita como irmãos. Que semelhanças? “muitas. O que é essencial é que ambos os casos há o resultado da conjugação de 2 aspectos: a espontaneidade e o trabalho. Tem de existir muito trabalho, muita prática, muito treino, e depois uma espontaneidade, um instante...se é necessário haver um dom? Mais no caso do futebol acredito que exista qualquer coisa com que se nasce. Na escrita já não tenho tanta certeza...É menos física. Tenho a certeza que nunca conseguiria ser jogador de futebol ao mais alto nível mas o que faço na escrita é reflexo daquilo que assisto, que vou tentando aprender...O fundamental é estar atento às coisas que nos acontecem, não passar por uma coisa de olhos fechados, apreender aquilo que passa por nós...”, diz, para finalizar com tirada de humor...sério. “No fundo a grande assimetria entre o futebol e a escrita está ao nível do dinheiro!”




Autor: Pedro Chagas Freitas
Data: 9 de Dezembro de 2003



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