Revelação: cabos submarinos que passam ao largo de Sines estavam a ser monitorizados por navios russos desde 2023

José Fonseca

20 de Abril, 2026

A notícia caiu como um muro no silêncio do Atlântico: navios de bandeira russa têm pairado, discretamente, ao largo de Sines desde 2023, descrevendo rotas lentas e precisas junto a rotas onde correm os cabos que suportam a internet e o comércio de dados. Não é apenas um enigma naval; é um alerta sobre a nossa vulnerabilidade mais subestimada: infraestruturas invisíveis, vitais e, por vezes, pouco defendidas.

O que se sabe

Relatórios de inteligência e registos de tráfego marítimo apontam para um padrão persistente: embarcações “oceanográficas” e “pesqueiras” com transponders intermitentes, manobras de baixa velocidade e permanências prolongadas nos corredores dos cabos. Um oficial europeu, sob anonimato, resume: “Vemos um mapeamento sistemático, não turismo de alta marinharia”.

A Marinha Portuguesa tem intensificado patrulhas, com cooperação aliada e recurso a vigilância aérea e sensores submarinos. “Não estamos parados a ver passar navios”, disse uma fonte naval em Lisboa. A NATO e a UE têm partilhado dados, cruzando imagens satelitais com assinaturas acústicas e alertas de porto.

Por que os cabos importam

Mais de 95% das comunicações internacionais viaja por fibra óptica submersa. Pela costa alentejana passa o EllaLink, que liga Europa e Brasil, além de infraestruturas emergentes que miram o ecossistema de dados do Atlântico. Cortar um cabo não é só causar uma falha de rede; é tocar no coração da economia digital, do setor financeiro e das defesas coletivas.

“Os cabos são a nossa artéria invisível”, afirma uma engenheira de rede numa operadora. “Redundância ajuda, mas a sabotagem física cria dores que não se resolvem com um simples clique.”

Métodos e sinais de vigilância

Especialistas descrevem um roteiro conhecido: perfis de casco adequados a operações de fundo, pequenas embarcações auxiliares, períodos noturnos de silêncio AIS e trajetórias em ziguezague sobre marcadores batimétricos. Em cenários mais sofisticados, surgem ROVs e sensores passivos para estudar rotas, profundidades e pontos de acesso.

Um analista naval observa: “Não é preciso tocar no cabo para o conhecer. Basta medir correntes, mapear lastros e ensaiar aproximações. O objetivo é ter um manual pronto para o dia em que for útil.”

Reação portuguesa e europeia

Lisboa puxou pelo manual de crise: mais patrulhas, coordenação com parceiros e diálogo ativo com operadores de cabo. Bruxelas reforça o dossiê de infraestrutura crítica, enquanto a NATO ensaia cenários de resposta rápida com drones de superfície e plataformas autónomas. “A paz exige preparo”, explicou um responsável europeu. “E o mar pede atenção constante.”

Ao mesmo tempo, investidores e municípios costeiros pressionam por clareza sobre responsabilidades, seguros e protocolos. “Transparência cria confiança”, diz um autarca alentejano. “E confiança atrai dados, talento e empresas.”

O que muda para empresas e cidadãos

A ameaça não é abstrata. Lojas, bancos, hospitais e escolas dependem de circuitos que cruzam o fundo do mar. Pequenos atrasos podem virar grandes perdas. A resposta combina tecnologia, direito e cooperação. Entre as medidas defendidas por especialistas:

  • Roteamento mais diverso, sensores de integridade em tempo real, exercícios conjuntos de resposta a incidentes, auditorias independentes e acordos de partilha de dados entre Estado e operadores.

“Não é paranoia, é prudência”, resume um consultor de cibersegurança. “Quanto mais difícil for tocar num cabo sem ser visto, menos provável é que alguém tente.”

Vozes do terreno

Pescadores de Sines notaram padrões estranhos. “Há barcos que passam devagar e ficam a rodar,” diz um mestre de traineira. “Não parecem à pesca, parecem a medir.” Uma fonte militar, cautelosa mas clara, acrescenta: “Não acusamos sem provas, mas já temos mais do que meras coincidências.”

Dentro das operadoras, há uma sensação de urgência. “Estamos a investir em monitorização física, não só em firewalls e software,” explica uma diretora de infraestrutura. “A cibersegurança começa, às vezes, com um sonar.”

Próximos passos

Portugal e parceiros querem regras mais robustas para atividades “científicas” em corredores de cabos, com notificações prévias e inspeções in loco quando necessário. Debatem-se sanções, mecanismos de responsabilização e a expansão de redes de sensores discretos, capazes de detetar intervenções a dezenas de milhas.

“Estamos a tratar o fundo do mar como tratamos o espaço aéreo”, disse um diplomata europeu. “Com mapas de risco, níveis de ameaça e respostas calibradas.” O objetivo é simples e exigente: garantir que a próxima geração de cabos que chega a Sines e ao Atlântico seja tão resiliente quanto a ambição digital da Europa.

No fim, fica a lembrança sólida de que segurança não é um ato único, mas um processo que se adapta às ondas do tempo. O mar é vasto, a fibra é fina, e a vigilância — nossa e dos outros — nunca dorme.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.