«Estas profissões vão desaparecer em dez anos»: o aviso de um especialista português em inteligência artificial

José Fonseca

3 de Junho, 2026

A aceleração da IA está a redesenhar o trabalho a um ritmo que muitos ainda subestimam. Em Portugal, um especialista em inteligência artificial deixa um aviso claro: haverá empregos que se vão tornar raros ou mesmo obsoletos antes do fim da década. Não é catastrofismo; é a leitura de quem acompanha modelos generativos, automação de processos e robótica aplicada no terreno. “O mercado está a mudar de estrutura; quem não agir, fica sem margem”, alerta.

O que está realmente em jogo

A palavra “desaparecer” soa absoluta, mas o que some primeiro são as tarefas. Funções com alto teor de rotina e baixo peso de julgamento humano deixam de justificar equipas numerosas. “A tecnologia retira fricção ao processo e aperta as margens”, diz o especialista. Em muitos casos, um único profissional com copilotos de IA fará o trabalho de três, alterando o balanço entre oferta e procura.

Nesta transição, o risco maior não é ficção científica; é a lentidão em adaptar competências. Quem aprender a desenhar prompts, a monitorizar modelos e a combinar dados com contexto de negócio sobe na cadeia de valor. Quem insistir em tarefas estritamente mecânicas verá o chão a encolher.

As áreas mais vulneráveis

Algumas funções, pela sua natureza repetitiva, enfrentam compressão acelerada. O especialista aponta setores onde a automação já mostra tração:

  • Operadores de call center orientados por scripts rígidos, substituídos por assistentes conversacionais 24/7
  • Caixas de retalho e bilheteiras presenciais, com crescimento de sistemas de self-checkout
  • Digitadores e administrativos de backoffice focados em lançamento e reconciliação padronizada
  • Profissionais de “conteúdo SEO raso”, superados por geração de texto automática com curadoria mínima
  • Tradutores de volumes simples e de baixo risco, deslocados por modelos multilingues com pós-edição
  • Analistas júniores de reporting, onde BI com IA sintetiza relatórios recorrentes
  • Agentes de telemarketing, face a campanhas hiperpersonalizadas por plataformas de automação
  • Verificadores de qualidade visual básica, substituídos por visão computacional
  • Serviços de balcão bancário para operações triviais, absorvidos por apps e chatbots

“Não falo de extinção instantânea; falo de erosão constante”, reforça o investigador. Quando a erosão é silenciosa, os números só chocam quando a vaga já passou.

Por que a IA avança aqui

A IA brilha onde há padrões claros, dados estruturados e objetivos repetíveis. Grandes modelos de linguagem reduzem custos de atendimento, enquanto RPA acelera fluxos administrativos. A visão computacional substitui inspeções simples, e a robótica colaborativa cobre movimentos previsíveis na logística. Quando se juntam dados, algoritmos e desenho de processo, surgem ganhos de eficiência tão visíveis que as diretorias não hesitam.

A diferença de 2026 para 2016 é a maturidade: já não é “prova de conceito”; é plano de negócio. “As empresas portuguesas estão mais pragmáticas: testam pequeno, medem impacto e escala quem entrega”, afirma o especialista.

O que não vai morrer

Nem tudo é substituível, e isso importa para escolhas de carreira. Tarefas que exigem empatia, negociação fina, criatividade com apetite por risco e responsabilidade legal resistem melhor. Professores que personalizam aprendizagem, clínicos que integram sinais ambíguos, designers que articulam narrativa e produto, técnicos de campo que resolvem imprevistos no local — todos ganham com ferramentas de IA sem perder a sua relevância.

“O que cresce é a exigência de orquestrar sistemas, pessoas e dados”, sublinha o investigador. Quem lidera processos complexos, define métricas de qualidade e garante a ética na aplicação tecnológica amplia o seu alcance.

Como preparar-se já

A melhor defesa é ataque. Mude hoje três hábitos: use um copiloto de IA no trabalho diário, registe resultados numa folha de cálculo, e peça feedback de alguém com experiência. Em paralelo, invista em quatro alavancas: literacia de dados, noções de engenharia de prompt, fundamentos de produto e comunicação clara. “Quem documenta processos e os transforma em fluxos semi-automáticos vira indispensável”, diz o especialista.

Para equipas, a palavra é pilotagem: projetos pequenos, métricas explícitas, governança de riscos e plano de adoção progressiva. Portugal tem massa crítica em cloud, centros de nearshoring e universidades que podem acelerar a requalificação. Falta ligar a academia ao chão das empresas com objetivos e prazos reais.

Sinais a vigiar nos próximos 24 meses

Fique atento à regulamentação europeia de IA e aos guias de conformidade setorial. Veja pilotos de veículos autónomos em corredores logísticos e quiosques de atendimento inteligente no retalho. Observe bancos a ampliar chatbots transacionais e ERPs com camadas generativas nativas. Se a sua função toca estes nós, prepare um plano de transição.

“Não é o apocalipse do emprego; é uma troca de pele”, conclui o especialista. Em dez anos, o mapa muda; em dois, muda o seu dia. Quem experimentar, medir e aprender rápido não espera pela maré — aprende a surfar com a prancha certa.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.