O aroma doce que escapa da Rua da Sofia, em Coimbra, anuncia um pequeno milagre. Depois de décadas a pairar apenas na memória de alguns, um doce de raiz conventual volta às vitrinas, acendendo curiosidade e afetos. Há quem chegue de propósito para o provar, há quem jure tê-lo sentido na infância, e há quem descubra, hoje, um sabor que parecia perdido.
Na Confeitaria da Sofia, entre tachos de cobre e um silêncio de oficina, a equipa afina pesos, temperaturas e tempos com devoção. “É um trabalho de paciência, quase um ritual”, diz Marta Figueiredo, a proprietária, com um sorriso que cheira a açúcar e limão. O objetivo é simples e ambicioso: devolver à cidade uma doçura quase varrida pelo tempo.
Um segredo que viu a luz
O doce chama-se “Mimos da Rainha”, uma receita atribuída às Clarissas de Coimbra e transmitida, ao longo de séculos, por códices e cadernos de cozinha. Terá circulado em casas abastadas e em romarias, mas desapareceu dos balcões com a modernização da doçaria e a perda de mão-de-obra artesanal.
“Não queríamos inventar uma lenda, queríamos recuperar um gesto”, sublinha Marta, segurando um molde antigo com a ponta dos dedos. “É uma peça frágil, de ovos e amêndoa, delicada como uma oração. Se erramos um segundo, a textura quebra.”
A caça ao manuscrito
A reconstituição começou com uma pergunta: como saber quando não há receita? Tiago Pina, pasteleiro-chefe, passou meses a vasculhar arquivos de bairro, fotocopiou cadernos de família e decifrou notas de margem. “Encontrámos três versões incompletas e muitas pistas”, recorda. Uma dizia “bater até cantar”, outra pedia “amêndoa em pó muito fina”, outra mencionava “calda clara em ponto de pérola”.
Sem medidas exatas, o trabalho fez-se de pequenas experiências. “Testámos doze prototipos até perceber o brilho da calda e o ponto em que o miolo fica húmido, mas não cru”, explica Tiago. “No fim, a boca tem de ficar limpa, com perfume de limão e travo quente de canela.”
Como sabe e como se faz
A massa leva gemas, amêndoa ralada, raspas de limão e um toque discreto de pão ralado, só o suficiente para suster a humidade. Molda-se com colher em pequenas “almofadas”, que assam em formas de cobre pouco profundas, untadas a pincel. Ao sair do forno, recebe uma calda leve, aromatizada com casca de limão e um cravinho quase sussurrado.
O resultado é um bocado tépido, húmido por dentro, brilhante por fora. O dente encontra resistência suave, depois cede, e a doçura nunca grita. “Quisemos fugir do excesso de açúcar e honrar a ideia de equilíbrio”, nota Tiago.
- O que o torna diferente: miolo de amêndoa muito fino, calda em ponto pérola, cocção curta em formas de cobre, perfume de limão quase etéreo.
Coimbra prova e aprova
Desde que o doce voltou à montra, a fila ganhou ritmo, sobretudo nas manhãs de sábado. “É como se a minha avó me chamasse da cozinha”, suspira Ana, cliente de meia-idade, com dois “Mimos” na sacola. Um estudante aponta o telemóvel e ri: “Mais uma razão para ficar em Coimbra.”
Também os historiadores se aproximam, com prudência e fome de arquivo. “Estas recriações têm de assumir a sua natureza interpretativa”, diz Luís Pereira, investigador local. “Mas são pontes para a memória e abrem portas a mais descobertas.” Na Confeitaria da Sofia, as críticas tornam-se notas de rodapé: uma senhora trouxe a versão escrita da mãe, um senhor sugeriu menos canela e mais limão. Cada dia acrescenta uma vírgula a esta nova edição.
O ritmo da oficina
A produção é limitada, pensada para evitar desperdício e manter a textura no seu melhor momento. “Preferimos vender menos e vender bem”, explica Marta. Todos os dias há fornadas às 10h, às 14h e às 16h, e quando acaba, acabou: o cartaz “Esgotado” é mostrado com orgulho e um pedido de desculpa.
O preço acompanha o custo de matéria-prima e o tempo de ofício, mas fica abaixo do que a raridade poderia ditar. “Se for inalcançável, perde-se outra vez”, diz Marta. “Queremos que circule, que sente à mesa famílias, que conte novas histórias.”
Passar adiante
Entre fornadas, a equipa prepara pequenas oficinas, onde se explicam pontos de açúcar, o brilho da calda e a leveza do bater. “Não é segredo de família, é saber de cidade”, insiste Tiago. Há conversas com escolas, visitas guiadas e uma parceria com um arquivo municipal para expor páginas de cadernos com manchas de calda.
No fim, fica a sensação de que a cidade recuperou um gesto e, com ele, uma medida de tempo. “A pressa estraga este doce”, diz Marta, fechando o forno com mão leve. Nos olhos, dança um reflexo de cobre e açúcar. E na vitrine, os “Mimos da Rainha” respiram quentes, prontos a sair pela porta e a reescrever, em bocados, uma memória de séculos.
