Arqueólogos encontram em Braga vestígios romanos com mais de 2 000 anos durante obras na cidade

José Fonseca

17 de Junho, 2026

As obras de requalificação no centro de Braga revelaram uma camada escondida do passado, trazendo à luz estruturas e objetos com mais de dois mil anos. O que começou como rotina urbana transformou-se numa janela excepcional para Bracara Augusta, o coração romano do Noroeste peninsular.

À medida que as máquinas escavavam para renovar condutas e pavimentos, surgiram muros, pisos lajeados e fragmentos de cerâmica que obrigaram a uma paragem imediata. A equipa de arqueologia desceu então à camada antiga, confirmando a presença de um bairro romano preservado sob as ruas atuais.

O achado e o contexto histórico

Fundada sob Augusto, Bracara Augusta foi capital da Gallaecia, cruzamento de vias e poder administrativo. Cada intervenção no subsolo da cidade reativa esse palimpsesto, onde séculos de construção e demolição deixaram pistas sobrepostas.

A localização do achado, em zona de trânsito intenso, encaixa no traçado urbano romano, com quarteirões regulares e infraestruturas de água e esgoto. A espessura das camadas confirma ocupações sucessivas, do período alto-imperial ao tardo-romano.

O que veio à luz

Os trabalhos revelaram um conjunto coerente que combina arquitetura, circulação e vida doméstica. Entre os elementos já identificados, destacam-se:

  • Um troço de via lajeada em granito, com marcas de rodas e berma de drenagem.

  • Bases de muros em alvenaria, sugerindo uma domus ou insula com pátio interior.

  • Condutas de esgoto e caleiras, evidenciando um sistema hidráulico apurado.

  • Fragmentos de mosaico policromado e rebocos com pigmentos, prova de ambientes decorados.

  • Cerâmicas finas e comuns, ânforas de transporte e lucernas de óleo.

  • Moedas de bronze e uma pequena peça epigrafada, com letras ainda legíveis.

Segundo a coordenadora científica, Marta Ferreira, “o conjunto é de uma qualidade rara para contexto urbano em Portugal, com preservação que nos permite ler as funções dos espaços”. Para João Oliveira, técnico da autarquia, “esta é uma oportunidade de ouro para integrar património e mobilidade, sem sacrificar o ritmo da cidade”.

Vozes no terreno

O estaleiro transformou-se em sala de aula ao ar livre, sob o olhar de comerciantes e moradores. “É como se abríssemos uma porta e os romanos estivessem ali, à nossa espera”, comentou Ana Carvalho, dona de uma loja nas imediações.

Do lado técnico, a equipa privilegia uma escavação metódica, com registo fotogramétrico e recolha de amostras para datação e análise paleoambiental. “Cada camada é um documento; se a rasgamos depressa, perdemos frases inteiras da história”, salientou Rui Magalhães, arqueólogo de campo.

A Direção-Geral do Património Cultural acompanha os trabalhos, alinhando critérios de conservação e eventual exposição pública in situ. “O objetivo é proteger, estudar e, se possível, partilhar”, resumiu uma fonte oficial.

Desafios e próximos passos

A obra de infraestruturas foi parcialmente suspensa, com redefinição de calendários e rotas de circulação. A equipa avalia a opção entre manter as estruturas no local — com uma janela arqueológica — ou proceder a uma levantagem seletiva para estudo e musealização.

O cronograma aponta para várias semanas de escavação e pelo menos um ano de análises em laboratório, incluindo estudos de argamassas, isotopias e resíduos em cerâmica. O Museu D. Diogo de Sousa será parceiro na conservação, garantindo condições de clima e registo.

Financiamento e logística são fatores críticos. A autarquia explora candidaturas a fundos europeus e linhas de mecenato, com um plano que concilie mobilidade urbana, salvaguarda patrimonial e comunicação pública.

O que isto muda para Braga

A descoberta reforça a identidade de Braga como cidade multiestratificada, onde o presente convive com raízes milenares. Para o turismo cultural, abre-se a possibilidade de um percurso romano articulado com as termas públicas, o teatro hipotético e os achados dispersos.

No plano académico, o sítio oferece dados para testar hipóteses sobre urbanismo, consumo e redes de troca no noroeste do Império. A presença de mosaicos e epígrafes pode redefinir o estatuto social do quarteirão, revelando elites locais e seus gostos.

Para a vida cotidiana, a visibilidade do passado tende a gerar maior civismo e cuidado com o espaço público. “Quando percebemos que caminhamos por cima de dois mil anos, pisamos com outra consciência”, observou Marta Ferreira, com uma mistura de orgulho e prudente entusiasmo.

Há ainda uma lição urbana: planeamento com sondagens prévias, protocolos claros entre obras e arqueologia, e comunicação transparente com quem vive e trabalha na zona. Assim, o que poderia ser só um imprevisto transforma-se em património partilhado.

No fim da tarde, o estaleiro fica silencioso, mas a cidade parece falar mais alto. Sob os nossos pés, Braga reaprende a ler-se a si mesma, linha a linha, pedra a pedra. E cada fragmento agora exposto sugere que a história, quando bem cuidada, tem o poder de reorganizar o nosso presente.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.