Chocante: farmacêutica faz alerta urgente nas redes sociais após requisição imposta

José Fonseca

22 de Março, 2026

Uma profissional experiente, obrigada a trabalhar

Em 35 anos de carreira, a farmacêutica Marjolaine Fernandez, de Melrand, nunca tinha feito greve. Mobilizada contra a redução das remissões nos medicamentos genéricos, ela se viu, no entanto, atrás do balcão no fim de semana, após ser requisitada pela ARS e pela prefeitura. Indignada, recorreu às redes sociais para expor a sua realidade e alertar para as consequências de decisões que considera injustas.

Greve visível, mas silenciosa no balcão

Até agora, a ARS e o prefeito selecionavam algumas farmácias de plantão por setor, garantindo o acesso dos doentes e mantendo uma greve visível. Hoje, segundo Marjolaine, a lista inteira é requisitada por e-mail, apagando os sinais públicos da mobilização. Ela iniciou a sua guarda no sábado e só terminou na manhã de segunda, após receber um aviso formal de possíveis sanções.

Somos farmacêuticos, não arruaceiros. Estamos aqui pelos doentes e pela continuidade dos cuidados”, afirma. A profissional relata ter ouvido, ao telefone, a ameaça de prisão e multa caso não cumprisse a ordem, algo que a fez denunciar o “abuso de e-mail” para resolver um problema de serviço público.

Desabafo que ecoa online

No Facebook, a farmacêutica registrou a sua guarda com uma foto e um texto contundente. “Não nos retirem o direito de greve por simples e-mail”, escreveu, ironizando as ameaças e criticando quem, na sua visão, não partilha a mesma exposição de horários e responsabilidades. O post recebeu dezenas de apoios, de colegas e utentes, que reconheceram a dureza da situação.

Requisitar algumas farmácias de plantão é aceitável; todas, não é”, reforça. A sua mensagem combina um apelo por respeito com a defesa do serviço aos pacientes, que, segundo ela, compreendem o motivo da greve e partilham do mesmo temor quanto ao futuro do acesso aos medicamentos.

O golpe dos genéricos e a “dupla lâmina”

Desde 1º de setembro, a redução de 10% nas remissões dos genéricos entrou em vigor, ao mesmo tempo em que os seus preços foram cortados de forma drástica. Para Marjolaine, é uma “dupla lâmina”: menos margem sobre um produto já barato, o que representa uma perda bem superior aos tais 10%. Na sua oficina, o impacto equivale a um salário inteiro de uma preparadora, comprometendo a equipa e o nível de serviço.

Enquanto 200 a 300 farmácias fecham por ano, em média, o novo corte pode acelerar uma tendência preocupante. Jovens proprietários, com planos de financiamento de vários anos, veem as suas projeções ruir, às vezes recorrendo à família para manter os pagamentos em dia. A equação financeira torna-se, assim, quase impossível.

Consequências para equipas e doentes

Se nada mudar, ela prevê um despedimento económico e dias inteiros sozinha ao balcão, atendendo cerca de 120 pessoas por dia — algo que considera insustentável. Além disso, cresce o risco de rutura: com menos margem, alguns fabricantes podem deixar de fornecer o mercado, agravando faltas já crónicas de terapias essenciais. “Somos caçadores de tesouros”, diz, descrevendo a busca diária por alternativas.

O resultado pode ser um verdadeiro tsunami: até um terço das farmácias em perigo de fechar e doentes a mais de 30 minutos da primeira oficina. “O drama será dos doentes”, alerta, lembrando que a proximidade é um pilar da segurança em saúde comunitária.

O que pedem os farmacêuticos

  • Revisão imediata das remissões dos genéricos, com base em custos reais.
  • Mecanismo de compensação para garantir a viabilidade das pequenas farmácias.
  • Plano nacional contra ruturas, com regras para fornecedores e stocks.
  • Diálogo efetivo com ARS e prefeituras, evitando requisições em massa.

Entre aplausos e ameaças

Durante a pandemia, recorda, os farmacêuticos foram aplaudidos, fizeram testes, vacinaram e assumiram riscos. Hoje, enfrentam ameaças de sanção e um clima de desconfiança institucional. “Não é assim que se trata quem está na linha da frente”, resume, pedindo respeito e negociação com metas claras e prazos realistas.

“Não pedimos privilégios, pedimos condições para cuidar melhor”, afirma. O seu apelo, ecoado por uma comunidade inteira, é por um compromisso que una sustentabilidade económica e acesso universal, antes que o sistema entre em zona de colapso.

“Se nos ouvirem, haverá saída”, conclui, certa de que o seu gesto nas redes não é apenas um desabafo, mas um pedido de socorro pelo qual muitos já a agradeceram. Entre a parede dos cortes e a espada das requisições, resta à profissão transformar o clamor digital em mudança concreta.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.