Uma profissional experiente, obrigada a trabalhar
Em 35 anos de carreira, a farmacêutica Marjolaine Fernandez, de Melrand, nunca tinha feito greve. Mobilizada contra a redução das remissões nos medicamentos genéricos, ela se viu, no entanto, atrás do balcão no fim de semana, após ser requisitada pela ARS e pela prefeitura. Indignada, recorreu às redes sociais para expor a sua realidade e alertar para as consequências de decisões que considera injustas.
Greve visível, mas silenciosa no balcão
Até agora, a ARS e o prefeito selecionavam algumas farmácias de plantão por setor, garantindo o acesso dos doentes e mantendo uma greve visível. Hoje, segundo Marjolaine, a lista inteira é requisitada por e-mail, apagando os sinais públicos da mobilização. Ela iniciou a sua guarda no sábado e só terminou na manhã de segunda, após receber um aviso formal de possíveis sanções.
“Somos farmacêuticos, não arruaceiros. Estamos aqui pelos doentes e pela continuidade dos cuidados”, afirma. A profissional relata ter ouvido, ao telefone, a ameaça de prisão e multa caso não cumprisse a ordem, algo que a fez denunciar o “abuso de e-mail” para resolver um problema de serviço público.
Desabafo que ecoa online
No Facebook, a farmacêutica registrou a sua guarda com uma foto e um texto contundente. “Não nos retirem o direito de greve por simples e-mail”, escreveu, ironizando as ameaças e criticando quem, na sua visão, não partilha a mesma exposição de horários e responsabilidades. O post recebeu dezenas de apoios, de colegas e utentes, que reconheceram a dureza da situação.
“Requisitar algumas farmácias de plantão é aceitável; todas, não é”, reforça. A sua mensagem combina um apelo por respeito com a defesa do serviço aos pacientes, que, segundo ela, compreendem o motivo da greve e partilham do mesmo temor quanto ao futuro do acesso aos medicamentos.
O golpe dos genéricos e a “dupla lâmina”
Desde 1º de setembro, a redução de 10% nas remissões dos genéricos entrou em vigor, ao mesmo tempo em que os seus preços foram cortados de forma drástica. Para Marjolaine, é uma “dupla lâmina”: menos margem sobre um produto já barato, o que representa uma perda bem superior aos tais 10%. Na sua oficina, o impacto equivale a um salário inteiro de uma preparadora, comprometendo a equipa e o nível de serviço.
Enquanto 200 a 300 farmácias fecham por ano, em média, o novo corte pode acelerar uma tendência preocupante. Jovens proprietários, com planos de financiamento de vários anos, veem as suas projeções ruir, às vezes recorrendo à família para manter os pagamentos em dia. A equação financeira torna-se, assim, quase impossível.
Consequências para equipas e doentes
Se nada mudar, ela prevê um despedimento económico e dias inteiros sozinha ao balcão, atendendo cerca de 120 pessoas por dia — algo que considera insustentável. Além disso, cresce o risco de rutura: com menos margem, alguns fabricantes podem deixar de fornecer o mercado, agravando faltas já crónicas de terapias essenciais. “Somos caçadores de tesouros”, diz, descrevendo a busca diária por alternativas.
O resultado pode ser um verdadeiro tsunami: até um terço das farmácias em perigo de fechar e doentes a mais de 30 minutos da primeira oficina. “O drama será dos doentes”, alerta, lembrando que a proximidade é um pilar da segurança em saúde comunitária.
O que pedem os farmacêuticos
- Revisão imediata das remissões dos genéricos, com base em custos reais.
- Mecanismo de compensação para garantir a viabilidade das pequenas farmácias.
- Plano nacional contra ruturas, com regras para fornecedores e stocks.
- Diálogo efetivo com ARS e prefeituras, evitando requisições em massa.
Entre aplausos e ameaças
Durante a pandemia, recorda, os farmacêuticos foram aplaudidos, fizeram testes, vacinaram e assumiram riscos. Hoje, enfrentam ameaças de sanção e um clima de desconfiança institucional. “Não é assim que se trata quem está na linha da frente”, resume, pedindo respeito e negociação com metas claras e prazos realistas.
“Não pedimos privilégios, pedimos condições para cuidar melhor”, afirma. O seu apelo, ecoado por uma comunidade inteira, é por um compromisso que una sustentabilidade económica e acesso universal, antes que o sistema entre em zona de colapso.
“Se nos ouvirem, haverá saída”, conclui, certa de que o seu gesto nas redes não é apenas um desabafo, mas um pedido de socorro pelo qual muitos já a agradeceram. Entre a parede dos cortes e a espada das requisições, resta à profissão transformar o clamor digital em mudança concreta.
