Um impasse administrativo com rosto humano
Três anos a burilar uma tese e quinze de estudos podem acabar no lixo por causa de um regulamento mal interpretado. Essa é a encruzilhada de Fouad Yanouri, interno de medicina geral impedido de sustentar. Formado no DES de Reims em junho de 2021, ele vê o seu percurso tardio — da física para a medicina — colidir com uma burocracia inflexível.
O que nasceu como um pedido de derrogação aceito, segundo a décana, virou negativa formal da presidência. A regra do prazo de três anos, lida à letra, afasta a sustentação que ele planejava para o início de 2025. Entre ofícios e silêncios, a vida profissional do interno está suspensa.
A cronologia de um bloqueio
Em princípio, a tese deveria ter sido defendida em outubro de 2024, mas mudanças de orientador e a dimensão do trabalho atrasaram o calendário. Confiante, o interno pediu uma derrogação que diz ter recebido da décana. Em março de 2025, porém, o presidente da universidade barrou a sustentação, invocando o artigo R. 632‑23 do Código da Educação.
Segundo a instituição, faltou um pedido de derrogação “devidamente justificado” dentro do prazo. Em termos práticos, a janela de defesa fechou, e o interno foi empurrado para a margem.
- Junho de 2021: validação do DES em medicina geral.
- Outubro de 2024: prazo teórico para sustentar, não cumprido.
- Início de 2025: preparação para defender, com derrogação suposta.
- Março de 2025: carta presidencial opondo-se à sustentação.
- 11 de abril de 2025: recurso administrativo, com rejeição implícita após dois meses.
Regras, exceções e o dilema da equidade
A universidade de Reims afirma não ter recebido um dossiê de derrogação completo nos prazos. Reforça que a obediência ao quadro legal protege a equidade entre candidatos. Conceder um “passe‑direito” — dizem — criaria uma ruptura injustificável com internos que respeitaram prazos.
Do outro lado, Fouad sustenta ter seguido as orientações e confiado na palavra da décana. O conflito expõe um clássico choque entre a letra da lei e o espírito da formação: proteger a regra sem esmagar a biografia de quem dela depende.
A vida suspensa
Com a tese pronta, impressa e validada, falta apenas um ato de 40 minutos para virar doutor. Sem defesa, não há diploma; sem diploma, não há direito de exercer. “Enquanto isso, não posso nem exercer, nem substituir, nada!”, desabafa o interno, descrevendo um cotidiano de espera e frustração.
A mediação não trouxe saída, e a via judicial parece longa demais. Entre contas a pagar e um sonho interrompido, o tempo corre contra o vocationado que já tinha vencido outras maratonas.
Uma tese pronta e sem voz
O trabalho mergulha na pedagogia médica e na abordagem por competências nas escolas de medicina. Foca os “guias de internos”, analisando como o socioconstrutivismo dialoga com o currículo e com a prática de aprendizagem situada. Fouad criou uma grelha de análise própria, fruto de leitura, observação e reescritas sem conta.
Na mesa, o volume encadernado acumula poeira simbólica: tudo aprovado, mas calado por um detalhe de prazo. É o retrato de um saber acumulado que não alcança o espaço público da banca.
O preço de recomeçar
Recomeçar medicina aos 33 anos, depois de lecionar física, não foi uma escolha leve. Exigiu renúncias pessoais, reajuste financeiro e uma rotina de plantões e estágios. “Eu sabia que seria um desafio, mas era isso ou conviver com a dúvida”, conta, dando a medida do investimento afetivo e material.
Ao ver o caminho bloqueado, o interno sente que lhe pedem para deitar fora 15 anos de trajetória. Não se trata apenas de um diploma, mas do direito de ligar conhecimento e cuidado em um serviço necessário.
O que está em jogo para a profissão
O caso expõe um problema sistêmico: quando a burocracia ignora a complexidade das trajetórias, produz‑se desperdício de talento. É legítimo defender a equidade, mas também é crucial garantir proporcionalidade e transparência nos ritos de exceção. Sem isso, o sistema perde médicos formados e desincentiva vocacionados tardios.
Para os jovens médicos, a lição é dupla: conhecer com minúcia os prazos e documentar cada passo; e, quando houver divergências, buscar interlocução precoce, por escrito e com provas. O objetivo não é burlar a regra, e sim impedir que a regra traia a finalidade de formar e cuidar.
Em última análise, a história de Fouad chama à responsabilidade institucional e ao cuidado com quem escolhe curar. Uma comunidade que valoriza a ciência precisa abrir espaço para que o conhecimento seja defendido, ouvido e posto ao serviço de todos.
