Ciência revela a surpreendente razão pela qual tantas pessoas não entendem as próprias emoções

José Fonseca

20 de Março, 2026

O que acontece quando não nomeamos o que sentimos

Muitas pessoas vivem um descompasso entre o que sentem e o que conseguem dizer. Esse hiato pode surgir de fatores biológicos e de trajetórias pessoais, tornando a experiência emocional turva. Em parte dos casos, fala-se em alexitimia, um traço que dificulta identificar e expressar emoções. Não é classificada como doença nos manuais DSM-5 e CIM-11, mas pode afetar relações e qualidade de vida.

Estudos estimam que entre 17% e 23% da população enfrentem dificuldades substanciais com estados emocionais. O instrumento mais usado é a Toronto Alexithymia Scale, que avalia reconhecimento e descrição afetiva. Mesmo sem rótulos clínicos, o impacto pode ser profundo em saúde mental e convivência. Compreender o fenômeno amplia a empatia e orienta caminhos de cuidado.

O cérebro e o “ruído” emocional

A pesquisa aponta diferenças sutis em circuitos de processamento emocional, como ínsula anterior e córtex pré-frontal. Uma conectividade menos eficiente pode tornar mais difícil mapear sinais internos e traduzi-los em palavras. Não significa ausência de emoção, e sim um acesso menos claro ao próprio estado.

Fala-se em alexitimia primária, mais estável e ligada a fatores neurobiológicos e de desenvolvimento. E também em uma forma secundária, que pode surgir após traumas, estresse intenso ou quadros como a depressão. Nesse caso, a dificuldade pode ser uma resposta adaptativa, reduzindo a carga de sofrimento. Seja qual for a via, o resultado é um vocabulário afetivo mais curto e uma bússola interna pouco nítida.

Quando o corpo fala mais alto

Quem não compreende bem suas emoções ainda assim as sente. O que falta é o “dicionário” para fazer a ponte entre sensação e significado. Essa lacuna pode deslocar a experiência para o corpo, gerando cefaleias, desconfortos gástricos ou fadiga. É a chamada somatização, em que o não dito ganha forma física.

Importante: dificuldade em entender o que se sente não torna alguém automaticamente alexitímico. Há gradações, contextos e momentos de maior opacidade emocional para quase todo mundo. Autoconhecimento não é linha reta, e a linguagem afetiva se constrói com tempo e prática.

Frieza afetiva ou mecanismo de proteção?

Confundir essa dificuldade com “frieza” é um equívoco comum. Muitas pessoas parecem distantes porque pensam de modo mais “operacional” do que emocional, preferindo fatos a nuances afetivas. Não é escolha moral; é um modo de processar o mundo que pode até funcionar como defesa.

“Não é que não sintam; é que não encontram palavras para o que sentem, e isso pode soar como silêncio.” A frase resume o impasse entre experiência interna e comunicação externa. Ao rotular como “desapego”, perdemos a chance de construir pontes e reduzir mal-entendidos. O convite é trocar julgamento por curiosidade e apoiar a tradução do que é vago.

Caminhos terapêuticos e aprendizagem emocional

Não existe “cura” no sentido médico, porque não se trata de uma doença. Mas há caminhos de aprendizagem que fortalecem a alfabetização emocional. Terapias baseadas em habilidades ampliam vocabulário afetivo a partir de sensações corporais e comportamentos observáveis. Abordagens como grupos terapêuticos, mindfulness e psicoeducação ajudam a conectar causa, sensação e nome.

Estratégias práticas incluem:

  • Rotular sensações no corpo antes de rotular emoções (ex.: “peito apertado”, “mãos frias”).
  • Usar escalas de 0 a 10 para graduar intensidade sem exigir precisão verbal.
  • Manter um diário breve com situação, sensação e possível emoção associada.
  • Criar um “mapa” pessoal de gatilhos e sinais precoces de sobrecarga afetiva.
  • Explorar linguagens não verbais, como música ou artes visuais, para expressar estados.
  • Treinar perguntas abertas em conversas: “o que seu corpo está mostrando agora?”.

Essas práticas constroem um passo a passo entre o que o corpo sente e o que a mente pode nomear. Elas reduzem a sensação de vazio e melhoram a comunicação no cotidiano. Pequenos avanços de vocabulário geram grandes efeitos na regulação emocional.

Uma cultura mais inclusiva para a diversidade afetiva

Entender que cada pessoa “fala” emoções em dialetos diferentes muda nossas expectativas. Em ambientes de trabalho e escolas, vale valorizar clareza comunicativa, tempo para pausas e ferramentas que acolham quem precisa de mais silêncio para se situar. Em casa, combinações simples — como checar sinais físicos, oferecer opções de palavras e evitar interpretações rápidas — criam segurança.

Promover letramento emocional é ato de inclusão e saúde. Reconhecer que o caminho de nomear o que se sente pode ser íngreme, mas ensinável, amplia nossa humanidade compartilhada. Ao substituir rótulos por escuta, ajudamos a transformar confusão em clareza, e silêncio em linguagem que finalmente encontra seu lugar.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.