Cientistas anunciam a descoberta histórica das rochas mais antigas do mundo

José Fonseca

24 de Março, 2026

Uma janela para a Terra primordial

Uma equipe de cientistas afirma ter identificado no Canadá vestígios de rochas do éon Hadeano, com mais de 4 bilhões de anos. A descoberta, publicada na revista Science, aponta para a cintura de rochas verdes de Nuvvuagittuq, ao longo da borda nordeste da Baía de Hudson. Se o novo enquadramento se confirmar, trata-se de alguns dos materiais rochosos mais antigos já reconhecidos na Terra.

Ao contrário do que se imaginava quando se batizou o Hadeano com o nome do deus grego dos infernos, Hadés, a água já teria estado presente naquela época tão remota. Foi nesse intervalo inicial que o núcleo, o manto e a crosta do planeta passaram a se organizar, definindo o palco para toda a história geológica posterior.

Onde ficam e como foram datadas

As rochas estudadas pertencem a um cinturão “verde” — um conjunto de basaltos e anfibolitos metamorfizados — conhecido como Nuvvuagittuq, no Canadá. Ali, assinaturas isotópicas muito antigas, como anomalias em neodímio-142, sugerem interação com um manto extremamente primitivo. Em trabalhos anteriores, idades ao redor de 4,28 bilhões de anos foram estimadas com sistemas Sm-Nd, enquanto outros marcadores indicavam eventos de metamorfismo por volta de 3,8 bilhões de anos.

O novo estudo integra múltiplas linhas de evidência, combinando geoquímica de elementos-traço, isótopos de Nd e Hf, e datações U–Pb em zircões herdados para separar o “relógio” da formação da rocha do “relógio” do metamorfismo posterior. O objetivo é distinguir material efetivamente hadeano de “relíquias” mais jovens.

Por que isso importa

Encontrar rochas tão antigas é como recuperar páginas que faltavam do “livro” da Terra primitiva. Essas páginas registram temperaturas do manto, química dos primeiros magmas e a presença ou não de água nas superfícies iniciais. Podem ainda iluminar quando a geodinâmica — incluindo os primeiros sinais de uma tectônica de placas incipiente — começou a atuar.

“Se confirmada, esta é uma janela direta para processos que moldaram a Terra nos seus primeiros 300 milhões de anos”, afirma a equipe, destacando a raridade de amostras preservadas em tão alto grau de antiguidade.

A diferença entre rocha e mineral “mais antigo”

O registro geológico preserva poucos fragmentos do Hadeano. Zircões de Jack Hills, na Austrália, com cerca de 4,4 bilhões de anos, continuam sendo os minerais mais antigos conhecidos na superfície terrestre. Mas eles são grãos isolados, transportados e reincorporados em rochas mais jovens. Já corpos coerentes de rocha realmente hadeanos são excepcionalmente raros.

Outro “marco” antigo é o Gnaisse de Acasta, nos Territórios do Noroeste, com idades de cerca de 4,02 bilhões de anos — considerado, por muitos, o pacote rochoso mais antigo in situ. Se Nuvvuagittuq tiver mesmo um protólito de 4,3 bilhões de anos, isso desloca a referência do que entendemos como crosta primordial.

Controvérsias científicas e próximos passos

Em geocronologia, detalhes importam. As idades podem registrar formação do protólito, metamorfismo, ou eventos de recristalização. Por isso, diferentes métodos às vezes divergem, e a comunidade científica exige convergência robusta de dados independentes. No caso de Nuvvuagittuq, questiona-se se o “relógio” cronometrado é do surgimento da rocha ou de um pulso posterior.

Há ainda implicações astrobiológicas tentadoras. Estruturas ricas em ferro, de morfologia tubular, já foram interpretadas por alguns grupos como possíveis microfósseis muito antigos, mas a hipótese segue intensamente debatida. Novas coletas de amostras, análises isotópicas de alta precisão e mapeamento microestrutural devem refinar as conclusões.

O que esses vestígios contam sobre o Hadeano

  • Indícios de água líquida em ambiente muito antigo, sugerindo resfriamento rápido da superfície terrestre.
  • Magmatismo dominado por composições máficas e ultramáficas, com traços de komatiítos e basaltos primitivos.
  • Assinaturas isotópicas que preservam a “memória” de um manto pouco diferenciado.
  • Pistas sobre quando processos de subducção e reciclagem crustal podem ter começado.
  • Contexto para avaliar a habitabilidade inicial e os nichos de quimiossíntese.

Ciência em progresso

A força desta proposta reside na convergência de múltiplas linhas de evidência. A cautela, por sua vez, vem da complexidade de um registro deformado por bilhões de anos de metamorfismo. Ambos os lados — ambição e prudência — fazem parte do método científico.

Consolidar idades hadeanas em rochas inteiras ajudará a calibrar modelos sobre a evolução térmica do planeta e o tempo de vida do “oceano de magma”. Também poderá explicar por que fragmentos dessa crosta inicial sobrevivem apenas em pequenas ilhas geológicas.

Seja qual for o veredito final, Nuvvuagittuq já cumpre um papel: obriga-nos a refinar técnicas, a cruzar dados e a reimaginar os primeiros capítulos da história terrestre. Ao fazê-lo, aproxima-nos da resposta a uma pergunta simples e monumental: como um planeta rochoso recém-nascido se tornou o mundo habitado que conhecemos?

Imagem reutilizada do artigo de origem

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.