Descoberta impressionante: anomalias de massa impulsionadas pelo fenômeno La Niña vêm desviando o eixo de rotação da Terra desde 2015, revela estudo

José Fonseca

17 de Março, 2026

Um abalo no bamboleio de Chandler

Desde 2015, a Terra passou a girar com um comportamento ligeiramente diferente. Pesquisadores da Universidade Nacional de Seul detectaram uma queda na amplitude do chamado bamboleio de Chandler, um movimento natural do eixo de rotação em relação à crosta. Em termos práticos, o polo Norte descreve um pequeno “oito” de cerca de 6 metros a cada 14 meses, mas essa oscilação parece ter perdido força. O achado, publicado na Geophysical Research Letters em setembro de 2025, aponta para um papel-chave de “anomalias de massa” ligadas a eventos climáticos.

La Niña e as “anomalias de massa”

Os autores sugerem que episódios de La Niña, especialmente o de 2010–2012, alteraram a distribuição global de massa. Isso envolve deslocamentos de enormes quantidades de água e ar, o que muda o momento de inércia do planeta e, por consequência, a dinâmica do seu eixo. Durante La Niña, o Pacífico equatorial central e leste esfria em grande escala, reorganizando padrões de vento, correntes e chuvas. Esses ajustes podem acumular massa em algumas regiões e esvaziá-la em outras, modulando o “balanço” do globo como um pião.

A mesma fase de La Niña ficou marcada por impactos extremos: inundações históricas no norte da América Latina e no Paquistão em 2010, além de seca severa no Chifre da África em 2011. Mudar a massa nos oceanos e na atmosfera é como mover pesos em uma roda gigante: o eixo responde com uma leve, mas mensurável, inclinação. A pesquisa liga esses rearranjos a uma redução na amplitude do bamboleio, um sinal sutil de como a variabilidade climática mexe com o “relógio” rotacional.

Confira também o vídeo relacionado: https://www.youtube.com/watch?v=etlhxeYDf_s

O que dizem os dados e os cientistas

Os cientistas usaram séries de gravimetria e modelos de circulação para relacionar mudanças de massa com o ajuste no eixo. A robustez do resultado apoia a ideia de que forçantes climáticas globais pesam mais do que oscilações locais e transitórias. Nem toda La Niña, no entanto, tem o mesmo efeito, porque a configuração dos ventos e das correntes varia com o pano de fundo oceânico. “As variações regionais de massa e os campos de velocidade do oceano e da atmosfera podem alterar a amplitude da oscilação”, dizem os autores, ressaltando o desafio de isolar a contribuição exata de cada região.

Segundo Taehwan Jeon e Ki-Weon Seo, a oscilação sintetiza o “somatório” do planeta, o que torna a atribuição uma tarefa complexa. Ainda assim, os indícios apontam que a sequência de La Niña após 2010 desencadeou anomalias suficientemente grandes para deslocar o equilíbrio. Uma peça importante é a transferência de água entre continentes e oceanos, mediada por precipitação, escoamento e armazenamento.

Aquecimento global como pano de fundo

O aquecimento global pode tornar os eventos de La Niña mais frequentes ou intensos, potencializando esse tipo de resposta do eixo. Com mais calor, a circulação atmosférica e as correntes tendem a exibir contrastes maiores, favorecendo redistribuições abruptas de massa. Isso significa mares que “respiram” de modo diferente, rios que enchem e esvaziam fora do padrão e geleiras que perdem ou ganham massa em ritmos anômalos. O resultado coletivo é uma Terra que gira com pequenas, mas reais, nuances.

Importa frisar que nada disso ameaça a vida cotidiana de forma direta ou imediata, mas afeta a precisão de medições geodésicas e sistemas que dependem de referência inercial. Para os observatórios, centrais de tempo e constelações de satélites, centésimos de milissegundo e milímetros no polo fazem diferença. Por isso, monitorar o eixo é parte crítica da geofísica moderna.

Principais pontos a reter

  • A amplitude do bamboleio de Chandler diminuiu desde 2015, segundo análise de dados de alta resolução.
  • Episódios de La Niña alteram a distribuição global de massa, influenciando o eixo de rotação.
  • Nem toda La Niña produz o mesmo sinal; o contexto oceânico-atmosférico muda a resposta.
  • Tendências do aquecimento global podem fortalecer ou tornar mais comuns esses padrões.
  • A implicação é mais técnica do que prática, mas crucial para navegação, satélites e geodesia.

O que observar a seguir

Nos próximos anos, missões de gravimetria como GRACE e successoras deverão refinar os mapas de massa do planeta. Ao combinar esses dados com medições de GPS, altimetria e reanalises climáticas, os cientistas poderão separar melhor o que vem de oceanos, geleiras e atmosfera. Se eventos La Niña se tornarem mais frequentes ou duradouros, espera-se uma assinatura mais clara no eixo e no balanço global de água. Isso ajudará a calibrar modelos que ligam clima, hidrologia e dinâmica rotacional.

Em última análise, o eixo da Terra é um sismógrafo de baixa frequência do sistema climático: quando massas se movem, o planeta “escuta” e responde. Entender essa dança fina entre oceano, atmosfera e crosta não é apenas curiosidade, mas infraestrutura para uma sociedade dependente de precisão. Como resume um pesquisador do grupo, “um mundo em mudança desloca massas, e massas em movimento reescrevem, milímetro a milímetro, a maneira como a Terra gira”.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.