Dois jovens quebra-ossos levantam voo pela primeira vez: um espetáculo raríssimo e comovente

José Fonseca

18 de Fevereiro, 2026

Nas encostas dos Pireneus Catalães, duas crias de abutre‑barbudo ganharam o céu, coroando meses de vigilância e esperança das equipas locais. Este acontecimento é um sinal de resiliência para uma espécie ainda vulnerável, mas tenaz, que encontra nestas montanhas o seu refúgio natural. O voo inaugural, um no fim de junho e outro no fim de julho, simboliza uma vitória concreta para a biodiversidade e para quem dedica tempo à sua proteção. Em torno destes jovens, ergue‑se um esforço coletivo que alia ciência, cidadania e uma verdadeira ética de cuidado.

Retrato de um gigante do céu

Chamado de quebra‑ossos, o Gypaetus barbatus impõe‑se com uma envergadura entre 2,70 e 2,85 metros, peso de 5 a 7 kg e comprimento de 1,10 a 1,50 m. A plumagem ventral de tom alaranjado‑ferrugem e a “barbicha” escura ao redor do bico conferem‑lhe um perfil inconfundível. Os ombros e as asas exibem tons de ardósia com riscas claras, enquanto os olhos, circulados por anéis preto, amarelo e vermelho, revelam um olhar penetrante.

  • Vive até 20–30 anos na natureza, com maturidade sexual apenas aos 6–8 anos.
  • É sobretudo solitário na caça, mas forma pares monogâmicos e fiéis por toda a vida.
  • Prefere escarpas rochosas, arestas e vales com ascendências térmicas favoráveis ao planeio.
  • Alimenta‑se maioritariamente de ossos e restos frescos, exibindo uma técnica única de quebra em rochas.

Ao contrário de outros abutres, consegue transportar presas com as garras e lança ossos de altura para os partir em lajes planas. Esse comportamento, aliado ao uso magistral das correntes térmicas, permite‑lhe percorrer longas distâncias com mínimo esforço. É uma especialista do alto‑montanhismo, adaptada ao ritmo das estações e às falésias onde constrói os seus ninhos.

Uma época de reprodução contrastada

Neste verão, seis casais nos Pireneus Orientais originaram cinco posturas, mas parte falhou devido ao mau tempo da primavera. Ainda assim, o sucesso de dois juvenis que alçaram voo no final de junho e de julho reequilibra o balanço da estação. Observações recentes registaram também jovens erráticos em deslocação pelo departamento, sinal de uma geração em aprendizagem.

“Cada jovem que ganha o céu é uma vitória para a biodiversidade e para o património natural das nossas montanhas.”

O juvenil abandona o ninho por volta dos quatro meses, mas permanece semanas dependente dos pais para aperfeiçoar voo e busca de alimento. Nos primeiros dois anos, explora vastos territórios antes de fixar área e só depois alcança a maturidade reprodutiva. Até lá, cada dia no ar é treino, experiência e teste de resistência.

Jovem abutre‑barbudo
Jovem abutre‑barbudo. © AGUSTIN ORDUNA / ISTOCKPHOTO

Conservação e cooperação

O acompanhamento na região é conduzido pelas Reservas Naturais Catalãs, pelo ONF, pelo GOR, pela CERCA Nature, pelo Syndicat mixte Canigó Grand Site, pelo Parque Natural Regional dos Pireneus Catalães e pelo OFB. Esta teia de parceiros garante vigilância de ninhos, recolha de dados e sensibilização do público. A coordenação é vital para reduzir perturbações e antecipar ameaças como envenenamentos ou colisões.

Em França, estima‑se hoje cerca de 80 casais, número discreto para uma espécie ainda em risco. Desde 2019, a LPO reporta um aumento lento dos reprodutores e dos jovens ao primeiro voo, tendência atribuída ao somatório de esforços no terreno. A espécie está presente nos Pireneus e na Córsega, com reintroduções bem‑sucedidas nos Alpes e, mais recentemente, nas Cévennes.

Como o público pode ajudar

  • Mantenha distância de ninhos e falésias sinalizadas, evitando ruído e sobrevoos com drones.
  • Controle cães em trilhos e respeite zonas de acesso restrito durante a época de criação.
  • Não deixe resíduos e reporte aves feridas às autoridades ou a associações locais.
  • Participe em ações de ciência cidadã e formações de observação responsável.

O primeiro salto destes dois jovens é um gesto de confiança no futuro, mas não dispensa vigilância e humildade. Cada temporada traz desafios novos, e a resposta depende da soma de conhecimento, cooperação e um território preservado. Se as montanhas continuarem a oferecer silêncio, alimento e abrigo, o grande quebra‑ossos seguirá a desenhar nos céus a sua assinatura de asas largas e voo sereno.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.