E se a obsolescência programada for a maior mentira de todas? O conselho mais simples e poderoso de um especialista para seus dispositivos durarem anos a mais

José Fonseca

26 de Março, 2026

Se a “culpa” estiver no modo como usamos

Em vez de acusar uma suposta obsolescência programada, vale observar o nosso comportamento. Após reparar mais de 400 mil aparelhos, o técnico Jérôme Vallée insiste: muitas falhas nascem de hábitos ruins. O que parece “defeito” costuma ser apenas descuido cotidiano.

“Não é o aparelho que é frágil, é o nosso uso que se tornou.” A frase resume um diagnóstico simples: máquinas resistem, mas o uso apressado e desinformado encurta sua vida útil. Um lave-linge com sabão em excesso se enlameia em meses; uma geladeira mal ventilada envelhece antes da hora.

Manutenção leve, constante e barata

A chave está em prevenir, não em esperar a pane. Pequenos gestos regulares mantêm tudo limpo e eficiente, aliviando motores, juntas e placas. São minutos por mês que valem anos a mais de serviço.

Na geladeira, tirar a poeira da serpentina traseira a cada três meses faz milagre. Verifique o fecho da porta e desgele sempre que a camada de gelo atingir 3 mm. Três milímetros bastam para elevar o consumo em 30% e cansar o compressor.

No lava-roupas, um ciclo mensal a 90 °C com vinagre branco remove resíduos e bactérias. No forno, um pano úmido após cada uso evita crostas, preserva vedações e dispensa químicos agressivos.

Respeitar limites é poupar componentes

Forçar capacidade é pedir por problemas. Um tambor cheio demais pressiona mancais e motor; um lava-louças lotado piora a lavagem e entope filtros. O “vou ganhar tempo” vira gasto e frustração.

As instruções do fabricante não são enfeite. Elas trazem capacidades, programas e cuidados que preservam o conjunto. Os modos “eco”, apesar da fama de lentos, protegem peças e reduzem as contas.

Comprar bem, usar melhor

Antes do design “de vitrine”, pense na reparabilidade. Prefira marcas com peças disponíveis e transparência técnica. O índice de reparabilidade ajuda: um 8/10 frequentemente vence o brilho que não se abre sem quebrar.

Reduza o modo standby com réguas liga/desliga e desligamento total à noite. Muitos aparelhos “dormem” consumindo e aquecendo eletrônica, acelerando falhas que parecem misteriosas.

E, diante de um sintoma, chame um profissional. Nove de cada dez defeitos têm solução simples e custam apenas algumas dezenas de euros. Jogar fora é quase sempre o pior negócio.

Gestos rápidos que alongam a vida útil

  • Limpar filtros de ar e dutos de secadoras mensalmente
  • Inspecionar e trocar vedações de portas quando ressecadas
  • Nivelar pés de máquinas para evitar vibração e desgaste
  • Usar dose correta de detergente conforme dureza da água
  • Dar “folga” térmica: não cobrir respirações e não encostar em paredes

Quando o mau uso se disfarça de defeito

Muitas “pifadas” são comportamentais, não técnicas. Tomadas frouxas geram microcurtos e aquecimento crônico. Cozinha com gordura no ar entope ventoinhas de geladeiras e fornos. Banheiros úmidos oxidam contatos de máquinas próximas.

Sintomas “estranhos” costumam ter causa simples: de gelo acima de 3 mm a filtros negligenciados. A boa notícia é que a maioria regride com uma rotina de cuidado breve e consistente.

Tempo, paciência e menos CO₂

A pressa usa mais energia e desgasta mais peças. Ao prolongar a vida de um equipamento em apenas um ano, um lar pode cortar até 200 kg de CO₂, segundo a ADEME. É economia para o bolso e para o clima.

Trocar por impulso satisfaz o desejo de novo, mas encurta o ciclo de recursos e aumenta lixo eletrônico. Reparar, limpar e calibrar devolve desempenho e adia a compra — quase sempre com resultado melhor do que o prometido por “gerações” seguintes.

O conselho simples que muda tudo

Adote um calendário de manutenção mínima, respeite capacidades e vigie a ventilação. São três pilares fáceis: limpeza periódica, uso dentro do projeto e atenção à energia em espera. Com isso, o “fim” vira recomeço, e a narrativa de obsolescência perde o encanto.

“Não é o progresso que gasta nossas máquinas, é a nossa impaciência.” Quando desaceleramos um pouco, os aparelhos duram muito mais. E descobrimos que o truque mais poderoso nunca esteve na caixa — sempre esteve no nosso modo de usar.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.