Filipe Albuquerque: “Caímos numa incerteza brutal!”


A pandemia Coronavirus – Covid 19 colocou o desporto automóvel em ‘stand-by’. Marcas, Equipas e Pilotos viram os seus programas desportivos suspensos e sem uma previsão real de regresso. As mentes mais optimistas apontam o mês de Junho para um possível regresso, mas é provável que só lá para Julho/Agosto existem as condições mínimas para se realizarem eventos em segurança.

Filipe Albuquerque é um dos pilotos que viu a sua actividade desportiva suspensa. A competir em três frentes, este seria, à semelhança de muitos outros anos, muito preenchido: Campeonato do Mundo de Resistência (FIA WEC), Campeonato da Europa de Resistência (ELMS), Taça Norte Americana de Resistência (IMSA) e mais recentemente piloto de testes do Formula E.

Confinado ao ambiente familiar, fomos saber como o piloto português vê a actual situação:

De que forma a pandemia afectou a tua carreira profissional?
Foi uma mudança radical. Os próximos meses iam ser uma verdadeira loucura em termos de corridas e de repente tudo para. Caímos numa incerteza brutal. Afectou a minha carreira, ainda para mais quando estou a liderar o campeonato do mundo mas, afectou também, a maioria das pessoas que têm de ficar em casa e não podem ir trabalhar.

Achas que as medidas tomadas a nível mundial no que ao ‘motorsport’ diz respeito foram as mais ajustadas?
Sim. Por mais que goste de competir e que de tudo fizesse para estar em pista, conscientemente todos sabemos que algumas medidas até pecaram por tardias. Temos todos de parar por uns meses para nos livrarmos deste vírus para depois pudermos regressar em segurança. Não há nada a fazer, é um tempo de espera essencial. Nunca vivi nada parecido, mas a maturidade faz-nos ver as coisas de uma forma mais realista.

De que forma o panorama automobilístico será afectado? Tens ideia?
Todas as áreas da sociedade vão sair afectadas por todo o mundo, disso não tenho dúvidas. E o desporto automóvel também. As equipas estão completamente paradas e as equipas menos fortes financeiramente vão ter enormes problemas, para não dizer que possam mesmo abrir falência. Mas temos que nos unir, adaptar e compreender a posição em que cada um está. Desde empresas que tem imensos encargos mensais a famílias que precisam de dinheiro para se alimentar. Não é fácil para ninguém.

Achas que haverá condições para termos provas ainda este ano?
Acredito que sim. Poderá haver um ou outro cancelamento mas acredito que os campeonatos irão retomar e espero que em força.

Tem sido fácil este período em casa? O que tens feito para manter e quebrar rotinas?
No início até parecia fácil. Como passo tanto tempo fora, tiro sempre muito prazer dos períodos que passo em casa. Mas, ao final de algumas semanas, com duas crianças pequenas é complicado gerir. Temos de nos reinventar a cada dia. Há períodos para as crianças, período para treinar e até para competir online. Têm sido dias de verdadeira descoberta.

Tendo pais médicos, a tua percepção da realidade é pior do que para a maioria das pessoas?
Talvez consiga ver as coisas com uma maior proximidade e a realidade é que nada do que está a acontecer é um brincadeira. Este vírus mata, e todos temos de tomar consciência disso. Mas não só, temos de tirar o chapéu a todos aqueles que diariamente estão nos hospitais a tratar das pessoas doentes e que correm sérios riscos. Por eles, pela saúde de todos, temos de ficar em casa.

Com a pandemia e os pilotos confinados em casa muito se tem falado do Sim Racing? Já te rendeste?
Sempre gostei, mas como nos últimos anos tive muitas corridas e a família cresceu, nunca tive tempo para poder praticar adequadamente. Mas confinado em casa, voltei em força. Já estive a actualizar o meu material porque já estava desactualizado. E com a quantidade de corridas online que surgiram tem sido uma verdadeira loucura dar resposta a tantos pedidos. Como se costuma dizer, quem não tem cão, caça com gato. É um bocadinho isso… já que não posso ir para as pistas as pistas vêm até mim, online!