Inacreditável: como nossos ancestrais mais remotos sobreviveram quando a Terra se transformou em uma bola de gelo

José Fonseca

25 de Janeiro, 2026

Nos períodos mais antigos da Terra, vastos mantos de gelo cobriram continentes e oceanos, e ainda assim a vida persistiu. Durante o Criogeniano (entre 720 e 635 milhões de anos), o planeta viveu um capítulo extremo, com temperaturas médias próximas de -50°C e o equador com clima semelhante ao da Antártica atual. Mesmo sob essa crosta de gelo quase global, a evolução não parou. Novas evidências sugerem que pequenos refúgios, processos físicos sutis e a versatilidade de organismos microscópicos permitiram que nossos ancestrais distantes atravessassem a era da “Terra bola de neve”.

A vida encontra um caminho

A leitura das rochas e dos microfósseis indica que formas de vida complexas existiam antes e depois dos grandes glaciares, o que aponta para uma continuidade evolutiva. Como resumiu a pesquisadora Fatima Husain, do MIT: “Temos provas da existência de formas de vida complexas antes e depois do Criogeniano nas arquivos fósseis”. Essa constatação alimenta hipóteses sobre possíveis refúgios de sobrevivência.

Entre os cenários discutidos estão porções de oceano sem gelo, proximidades de fontes hidrotermais nas profundezas marinhas, bolsões aquáticos sob camadas de gelo finas, além de poças de degelo nas regiões equatoriais. Em cada um desses ambientes, energia, nutrientes e proteção relativa teriam sido suficientes para manter comunidades microbianas e eucarióticas.

Oásis de degelo em um mundo congelado

Um dos refúgios mais plausíveis seriam pequenas poças de degelo que se formam quando sedimentos escuros ficam expostos à luz do Sol e absorvem calor. Observações na plataforma de gelo de McMurdo, na Antártica, mostram como o processo ocorre hoje: a água congela até o fundo, aprisiona sedimentos e organismos, o vento erode a superfície, o material escuro emerge e, ao aquecer, derrete a gelo ao redor, formando poças rasas.

Nessas poças, camadas densas de microrganismos se acumulam, criando tapetes biológicos coloridos. As cianobactérias dominam muitas dessas comunidades, graças à sua capacidade de realizar fotossíntese em condições extremas. Surpreendentemente, pesquisadores também identificam marcadores de eucariotos — incluindo algas e minúsculos animais —, o que revela uma biodiversidade maior do que se esperava para ambientes tão hostis. Em alguns locais, diferenças na salinidade entre poças parecem influenciar a composição das comunidades, sugerindo micro-hábitats variados em distâncias muito curtas.

“Cada poça era diferente”, relatou Husain. “Encontramos conjuntos diversificados de eucariotos de todos os grandes grupos em todas as poças estudadas.” A mensagem é simples e poderosa: ambientes pequenos, mas únicos, bastam para sustentar ecossistemas diversos.

Estratégias de resistência em ambientes extremos

Para atravessar eras geladas, nossos ancestrais teriam combinado múltiplas táticas ecológicas e metabólicas:

  • Uso de energia química perto de fontes hidrotermais, explorando gradientes de compostos como sulfeto e hidrogênio.
  • Fotossíntese sob gelo fino e translúcido, aproveitando o pouco de luz que atravessa.
  • Vida em salmouras hipersalinas, nas quais o ponto de congelamento é inferior, mantendo água líquida a temperaturas muito baixas.
  • Estados de latência e crescimento lento, economizando energia em períodos desfavoráveis.
  • Tapetes microbianos que criam microambientes com ciclos de oxigênio, nutrientes e proteção física.

Essa flexibilidade metabólica, combinada à estrutura em “mosaico” do gelo e do degelo, teria favorecido a resiliência das linhagens que eventualmente deram origem à biodiversidade atual.

Janelas para a astrobiologia

Esses refúgios terrestres também iluminam a busca por vida em outros mundos. Estudar poças de degelo, salmouras e ecossistemas sob gelo ajuda a entender ambientes potencialmente habitáveis em luas geladas como Europa e Enceladus. Se pequenos oásis sustentam vida em condições antárticas, micro-hábitats análogos podem existir onde gelo, rocha e energia se encontram além da Terra. “O estudo da vida nesses ambientes particulares pode ajudar a compreender mundos gelados”, enfatiza Husain, reforçando que a diversidade pode emergir mesmo em espaços mínimos.

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O legado após o gelo

Quando o gelo recuou no fim do Criogeniano, a Terra entrou no Ediacarano, período de inovação biológica e aparecimento de organismos multicelulares mais complexos. O ciclo de degelo teria aumentado o aporte de nutrientes aos oceanos, alimentando cadeias tróficas e impulsionando a oxigenação. Esse ganho de oxigênio, por sua vez, ampliou o espaço ecológico para eucariotos, permitindo novas formas, comportamentos e ritmos de crescimento.

É plausível que os estresses do congelamento global tenham funcionado como “filtros evolutivos”, selecionando linhagens com estratégias de sobrevivência excepcionais. Essas linhagens, ao reencontrarem mares mais amenos, expandiram-se rapidamente, ocupando nichos e inaugurando trajetórias que culminariam, muito depois, na explosão Cambriana e, por fim, em nós.

A história sugere uma lição simples: mesmo quando o planeta parece implacável, a vida encontra vias estreitas para persistir. Em poças efêmeras, sob gelo translúcido ou ao redor de fontes profundas, nossos ancestrais mantiveram a chama acesa. O passado congelado, longe de ser um fim, foi o laboratório onde a resiliência da vida se refinou — e onde os fundamentos da nossa própria existência foram moldados.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.