Inspirado nos exploradores de Marte, o rover Magellano avançou por quilómetros de passagens subterrâneas sob a antiga cidade etrusca de Veios, a norte de Roma. Com suspensão tipo rocker-bogie, este veículo manteve as rodas em contacto constante com o solo irregular, recolhendo dados onde o acesso humano era arriscado. O resultado foi a primeira cartografia integral destes corredores, realizada com métodos não invasivos e tecnologia de última geração.
Nas profundezas de Veios
Veios (Veio, em italiano) foi um dos principais centros da Etrúria, florescendo desde o século VIII a.C., a apenas 16 quilómetros de Roma. A cidade combinava bairros organizados, santuários e necrópoles com túmulos ricamente decorados, revelando uma cultura urbana e religiosa sofisticada. Sob a superfície, estendia-se uma rede de galerias, os cuniculi, aquedutos e cisternas, concebidos para gerir a água e, por vezes, para acessos discretos.
O Magellano percorreu galerias horizontais e poços verticais, mapeando ligações entre o planalto de Campetti, o vale de Cannetaccio e o Santuário de Portonaccio. Perto do templo de Apolo, os investigadores registaram uma grande piscina sagrada, alimentada pelos cuniculi, prova material de rituais de purificação. Com cerca de 20 metros, o tanque continuou a ser usado em época romana, após a conquista de Veios em 396 a.C.
Tecnologia inspirada em Marte
Tal como os rovers da NASA, o Magellano beneficia de uma suspensão rocker-bogie que distribui o peso e contorna obstáculos sem perder tração. Sensores, navegação remota e recolha de dados à distância permitiram avançar em segurança, mesmo em zonas estreitas, húmidas e de visibilidade reduzida. As equipas do Museu Nacional Etrusco da Villa Giulia e da cátedra de Etruscologia da Sapienza adaptaram ferramentas do domínio aeroespacial a um laboratório arqueológico subterrâneo.
Os registos detalhados somam mais de 23 quilómetros de canais, demonstrando uma engenharia planeada, não meras escavações casuais. A integração de topografia, fotografia e varrimentos de superfície cria um modelo coerente, útil para interpretação estratigráfica e conservação.
“Voltar a estudar o Santuário de Portonaccio com escavações rigorosas e tecnologias de ponta significa alargar decisivamente o conhecimento de um dos lugares mais significativos da Etrúria”, afirmou o diretor-geral dos Museus Italianos, Massimo Osanna.
Engenharia etrusca sofisticada
Os dados apontam para uma cidade “de superfície” suportada por um sistema oculto, que combinava funções técnicas e rituais. Canais, cisternas e poços garantiam drenagem e abastecimento, enquanto bacias e percursos específicos serviam práticas de limpeza e sacralização. A distinção precisa entre trechos hidráulicos e áreas rituais exige análises complementares de tipologia, materiais e datação.
Ainda assim, a cartografia integral muda o patamar da pesquisa, pois abre segmentos antes inacessíveis sem perturbar o sítio. Ao reduzir intervenções intrusivas, a equipa protege estruturas frágeis e recupera informação espacial fina, crucial para modelos urbanos de longo curso.
O que foi revelado
Entre os resultados, destacam-se elementos que ajudam a reconstituir o planeamento da cidade e os seus usos cotidianos e sagrados:
- Conexões entre bairros periféricos e o Santuário de Portonaccio, evidenciando uma malha que servia mobilidade e ritual.
- Identificação de uma piscina sagrada junto ao templo de Apolo, ligada aos cuniculi e a práticas de purificação.
- Confirmação de trechos com função de drenagem e abastecimento, integrados ao regime hídrico do vale do Crémere.
- Mapeamento contínuo de cerca de 23 quilómetros de túneis, com trechos conservados e outros parcialmente colapsados.
- Base de dados georreferenciada para futuras escavações, conservação e divulgação.
Próximos passos
Com o mapa em mãos, os investigadores podem planear sondagens cirúrgicas, dirigir análises de sedimentos e consolidar trechos em risco de colapso. A prioridade é articular perguntas arqueológicas — cronologia, função e ritualidade — com respostas obtidas por sensores e amostragens pontuais. A colaboração entre museus, universidades e centros de pesquisa mostra o valor de integrar ciência e património de forma responsável e inovadora.
“Cartografar túneis com métodos não invasivos e instrumentos de última geração é uma novidade absoluta para este sítio e prova a força da cooperação institucional.” Ao transformar um labirinto invisível num sistema legível, o Magellano amplia o horizonte de estudo da Etrúria e devolve à superfície uma cidade que, desde sempre, também existiu sob os nossos pés.
