Mais de 800 milhões de euros: a nova autoestrada que vai ligar Portugal a Marrocos por um túnel submarino começa a ganhar forma

José Fonseca

21 de Abril, 2026

Uma visão ambiciosa começa a ganhar corpo, com um orçamento superior a 800 milhões de euros e um roteiro técnico que procura transformar o Atlântico num corredor de proximidade. Entre memórias de pontes impossíveis e estudos submersos, a proposta de uma ligação direta entre Portugal e Marrocos por um túnel submarino deixa de ser só rascunho e passa a planeamento.

“É um salto infraestrutural que reconfigura mapas mentais”, ouve‑se entre planeadores que acompanham as primeiras linhas do dossiê. A ideia, ainda em fase de consolidação, combina engenharia prudente com ambição geopolítica muito clara.

Um corredor atlântico-ibérico ganha contornos

O esboço prevê uma autoestrada contínua, apoiada por um eixo marítimo de apoio e plataformas logísticas em terra firme. O traçado português encostaria ao Algarve, encaixando na A22 e em nós de mobilidade existentes, enquanto do lado marroquino conectaria às vias de alta capacidade a norte de Tânger.

Os técnicos falam num “projeto modular”, capaz de escalar em fases sem paralisar tráfego regional ou “meter a antes do tempo”. A coordenação binacional seria garantida por um consórcio com regras de interoperabilidade, padrões de segurança e metas ambientais comuns.

Como seria o túnel submarino

O coração da proposta é um túnel de dupla galeria, com faixa por sentido e um corredor técnico de emergência. A ventilação seria mista, com extração longitudinal e poços pressurizados a intervalos regulares, incluindo refúgios anti‑incêndio e sistemas de supressão.

A solução construtiva em estudo cruza imergido em elementos pré‑fabricados com escavação por TBM adaptada a condições de pressão e geologia marinha. “Não é ficção científica, é engenharia com redundância séria”, resume um engenheiro envolvido, sob pedido de discrição.

Os números e as fases

O envelope inicial supera os 800 milhões de euros, cobrindo estudos, licenciamento, reforços viários e a pré‑fabricação de segmentos críticos. O investimento total dependerá de geologia fina, riscos sísmicos e da escolha entre operação com portagem ou regime misto de concessão e parceria.

  • Fase 1: estudos ambientais, ensaios geotécnicos, anteprojeto e procurement; Fase 2: plataformas de acesso, portais e unidades de fabrico; Fase 3: imersão e escavação principal; Fase 4: equipagem, testes e comissionamento.

“Cada bloco terá métricas de desempenho e gatilhos financeiros claros”, nota um consultor que acompanha benchmarking em ligações submersas. O desenho contratual pretende mitigar derrapagens e premiar prazos cumpridos.

Impacto económico e logístico

A ligação promete encurtar tempos de transporte, reduzir custos porta‑a‑porta e criar uma janela atlântica para cadeias de valor agroalimentares, têxteis e de tecnologia leve. As áreas francas de Tânger e os portos do sul de Portugal poderiam alinhar janelas de transbordo e serviços de alto valor.

Para o turismo, a travessia de minutos em vez de horas pode redesenhar rotas, sazonalidades e parcerias hoteleiras. “É um produto de mobilidade que aproxima culturas sem esmagar identidades”, diz uma gestora de destinos que vê oportunidade em pacotes bilaterais.

Ambiente, riscos e salvaguardas

O mar não é sala vazia. A fauna pelágica, corredores migratórios e ecossistemas sensíveis exigem monitorização fina e medidas de compensação. O EIA terá de provar que ruído, turvação e vibração ficam abaixo de limiares aceitáveis, com janelas de obra em épocas de menor impacto.

Do lado sísmico, a redundância estrutural, juntas de expansão e sistemas de corte automático de energia são linhas de defesa. A segurança operacional incluirá detecção térmica, captação de fumos, reversão de fluxos e cenários de evacuação com simulação realista.

Tecnologia e experiência do utilizador

Prevê‑se portagem free‑flow, gestão inteligente de velocidades e sinalização dinâmica que lê o estado do túnel em tempo real. A experiência do condutor deve ser “curta, clara e previsível”, com transições de luminosidade bem calibradas e mensagens anti‑claustrofobia em pontos chave.

A manutenção será dominada por sensores, gémeos digitais e rotinas predi tivas. A meta é maximizar disponibilidade sem a “manta de obras permanentes” que penaliza utilizadores e encarece operações.

Modelos de financiamento

Discute‑se uma concessão com receitas de portagem, aportes públicos de arranque e fundos europeus para conetividade e resiliência. O lado marroquino avalia incentivos fiscais e garantias soberanas para reduzir custo de capital.

“A chave é alocar risco a quem o sabe gerir”, defendem especialistas em infraestruturas. Instrumentos verdes podem baixar spreads se a obra provar ganhos líquidos de emissões na rota comparada ao ferry convencional.

Calendário possível e próximos passos

O calendário realista fala em dois anos de projeto, três a quatro de obra principal e um período de testes com abertura faseada ao tráfego. Os marcos imediatos são a consulta pública, a modelação hidrodinâmica e o acordo intergovernamental de enquadramento legal.

Nada disto dispensa prudência, mas o tom já não é de ficção retórica. Como resume uma voz do setor: “É um sonho com cronograma e folhas de cálculo que começam a fechar em números.” Se a bússola se mantiver firme, o Atlântico pode tornar‑se a mais curta distância entre dois mundos.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.