O experimento mais insano de 1925: estudantes ficaram 60 horas acordados tentando provar que o sono era desnecessário

José Fonseca

1 de Abril, 2026

Em 1925, no auge da modernidade americana, sete estudantes da George Washington University aceitaram passar sessenta horas acordados. A proposta partiu do professor de psicologia Frederick August Moss, que via no sono uma habitude dispensável e cara à produtividade. Em plena Washington de fábricas e invenções, a façanha parecia um rito de passagem rumo a uma vida mais eficiente.

Um experimento entre ousadia e ciência

Sob a orientação de Moss, o grupo manteve-se desperto por dois dias e meio, entre conversas, passeios de carro e partidas improvisadas de baseball. A ideia era medir reflexos, memória e raciocínio enquanto a fadiga se acumulava. Popular Science descreveu a atmosfera como de laboratório e de espetáculo, com métricas, cronômetros e testes repetidos.

Os resultados pioravam gradualmente, mas sem colapsos dramáticos. Moss interpretou essa resistência como sinal de que o corpo poderia ser treinado para contornar a cansaço. Para a cultura de alto rendimento da época, a leitura parecia sedutoramente plausível.

Trajetórias que nasceram da vigília

Entre os voluntários estava Thelma Hunt, então com 22 anos, que mais tarde se tornaria referência em psicologia educacional. Ao lado de Louise Omwake, lideraria reformas acadêmicas e assumiria funções de chefia no departamento de sua universidade. O Smithsonian Institution Archives traçou o percurso dessas pioneiras, que transformaram uma ousadia de juventude em carreira de impacto.

Essas histórias ecoam um tempo em que mulheres precisavam romper barreiras para ter voz em laboratórios e salas de aula. A experiência de 1925 foi também palco de afirmação intelectual e de coragem institucional.

Produtividade, Edison e o mito da insônia heroica

O experimento dialogava com um culto à velocidade e ao trabalho ininterrupto, cuja figura-símbolo era Thomas Edison. O inventor defendia rotinas de sono curtas, convencido de que a vontade substituiria o repouso. A América das linhas de montagem e do aço tomou essa ética como evangelho de eficiência.

Mas a ciência pedia prudência. Em julho de 1925, pesquisadores de Chicago já publicavam dados contrários, indicando que reduzir o sono sem prejuízo à saúde era impossível. O consenso emergente falava em funções essenciais do sono, invisíveis ao olhar da produtividade.

O que a privação realmente expôs

Moss registrou tempos de reação, falhas de memória de trabalho e lapsos de atenção em tarefas simples como estacionar sem encostar no meio-fio. A degradação foi clara, ainda que sem catástrofes imediatas. Outros laboratórios, porém, destacavam riscos sistêmicos e efeitos cumulativos na mente e no corpo.

“Ficar acordado não é o mesmo que estar em pleno funcionamento.”

Com o avanço do século XX, Nathaniel Kleitman e Eugene Aserinsky mapearam ciclos do sono e o sono REM, revelando que dormir é um processo ativo de consolidação e reparo. O cérebro seleciona informações, fortalece sinapses e calibra redes metabólicas. Longe de perda de tempo, o sono é infraestrutura biológica.

Da façanha ao entendimento moderno

Hoje sabemos que a privação crônica altera o metabolismo, enfraquece o sistema imunológico e eleva riscos de depressão e cardiopatias. Estudos populacionais mostram uma curva em U: pouco ou muito sono associam-se a pior desfecho, embora o excesso frequentemente sinalize doenças subjacentes. Regularidade tornou-se palavra-chave, tão importante quanto a duração.

A higiene do sono ganhou estatuto de preventivo de baixo custo e alto impacto. Entre estratégias, destacam-se rotinas previsíveis e ambientes favoráveis ao desligamento cognitivo.

  • Estabelecer horários de deitar e levantar, inclusive nos fins de semana.
  • Reduzir luz azul e estímulos intensos ao menos uma hora antes de dormir.
  • Manter o quarto fresco, silencioso e escuro, com colchão de suporte adequado.
  • Evitar cafeína e álcool nas horas que antecedem o repouso, priorizando hidratação moderada.
  • Praticar atividade física regular, longe do horário de sono.
  • Usar técnicas de respiração e relaxamento para acalmar o sistema nervoso.

Imagem ilustrativa sobre experiências de privação de sono

A maratona de 1925 pertence à era do otimismo industrial, mas produz eco no século de apps, turnos e telas luminosas. Cada noite em branco ensinou algo sobre limites humanos e sobre a falsa equivalência entre vigilância e desempenho. Se a experiência de Moss celebrou o poder da vontade, a ciência atual lembra que a vontade sem sono erode, silenciosamente, as bases da própria vontade.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.