Plano ousado nos EUA: reconverter antigos reatores nucleares da Marinha dos EUA para turbinar datacenters famintos por energia

José Fonseca

23 de Fevereiro, 2026

Contexto energético e proposta incomum

A demanda por eletricidade cresce com a expansão de centros de dados dedicados à IA. Diante desse salto, uma empresa do Texas, a HGP Intelligent Energy, propõe um caminho ousado: reconverter antigos reatores nucleares da Marinha dos Estados Unidos para abastecer datacenters. A ideia aproveita ativos militares desativados para criar capacidade firme e de baixa emissão. Segundo informações submetidas ao Departamento de Energia dos EUA (DOE), a primeira implantação miraria o Laboratório Nacional de Oak Ridge, no Tennessee.

Itálico: USS Dwight D. Eisenhower, 26 de novembro de 2023 — crédito: Departamento de Defesa dos EUA / AFP

Tecnologia naval, potência e segurança

A Marinha opera há décadas com reatores como os Westinghouse A4W, usados em porta-aviões da classe Nimitz, e os General Electric S8G, dos submarinos da classe Los Angeles. O projeto prevê gerar entre 450 e 520 megawatts, suficiente para um campus de IA de grande porte. A experiência acumulada — mais de 100 reatores em 50 anos sem acidentes radiológicos maiores, segundo a Associação Nuclear Mundial — sustenta a tese de confiabilidade. Essa trajetória de segurança embasa a conversão para uso civil, agora vinculada ao programa Genesis.

Reaproveitamento estratégico de ativos

Muitos desses reatores estão perto do fim de vida operacional, como o USS Nimitz em seu último deslocamento. Em vez de desmontá-los de imediato, a proposta dá “segunda vida” a máquinas robustas. A eletricidade seria dedicada a cargas contínuas e previsíveis dos datacenters, aliviando redes locais e reduzindo picos. Para a indústria de IA, uma fonte estável e livre de carbono é um diferencial competitivo e regulatório.

Economia e cronograma

Os custos projetados variam de 1 a 4 milhões de dólares por megawatt, abaixo de novas usinas convencionais e de pequenos reatores modulares. A implementação exigiria de 1,8 a 2,1 bilhões em capital privado para infraestrutura, com fase inicial possível já em 2029. A HGP propõe compartilhar receitas com o governo e criar um fundo para desmantelamento, mitigando a incerteza de resíduos nucleares. Essa modelagem busca alinhar incentivos públicos e privados, reduzindo risco financeiro percebido.

Benefícios e riscos em perspectiva

A viabilidade combina engenharia, economia e aceitação social. Há ganhos potenciais em emissões, previsibilidade de custo e uso eficiente de ativos existentes. Persistem desafios em licenciamento, padronização de combustível e integração com sistemas de refrigeração e cibersegurança. O escrutínio público será intenso, sobretudo em comunidades próximas aos centros de dados.

  • Redução de emissões e maior segurança de suprimento
  • Reaproveitamento de capital tecnológico já amortizado
  • Complexidade regulatória e custos de desmantelamento
  • Gestão de resíduos e percepção social do nuclear
  • Integração física e digital com datacenters de missão crítica

Citação do projeto

“Nossa equipe tem a experiência e os parceiros necessários para conduzir o projeto com segurança em grande escala”, afirma Gregory Forero, diretor executivo da HGP Intelligent Energy.

O papel de Oak Ridge e da rede

A escolha de Oak Ridge une ciência de ponta e infraestrutura existente de pesquisa. A proximidade a linhas de transmissão e a facilidades federais acelera licenças e logística. Para a rede elétrica, a fonte despachável e estável ajuda a amortecer variações das renováveis e a acomodar a carga “sempre ligada” dos datacenters. Com demanda de IA crescendo em dobro dígito, cada megawatt confiável tornou-se altamente disputado.

Datacenter — imagem de ilustração
Itálico: Datacenter — imagem de ilustração (BFMTV)

Comparação com outras rotas

Grandes empresas de tecnologia exploram SMRs, contratos de energia de longo prazo e microrredes híbridas com armazenamento. A reconversão de reatores navais cria uma alternativa ponte, potencialmente mais rápida que projetos “greenfield”. Não elimina investimentos em solar, eólica e baterias, mas cria base de carga firme para IA e nuvem. Na prática, viabiliza um portfólio de fontes complementares, reduzindo riscos de dependência de um único vetor.

Questões regulatórias e transparência

A transição exige protocolos de segurança civil, auditorias independentes e comunicação clara com o público. Transparência sobre combustível, descarte e planos de contingência será vital. Órgãos como o DOE e a Comissão Reguladora Nuclear estabelecerão marcos de certificação e monitoramento. Sem confiança social, o calendário técnico-financeiro perde tração e o projeto enfrenta resistência política.

O que observar a seguir

Indicadores-chave incluem aprovação regulatória, estruturação do consórcio de parceiros e contratos de venda de energia de longo prazo. Se a fase de 2029 se confirmar, o caso pode virar referência para a reciclagem de ativos militares em infraestrutura civil crítica. Em um mercado em que cada watt para IA vale ouro, a combinação de segurança, custo e escala pode definir o próximo capítulo da energia para dados.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.