Quase ninguém sabe: a França detém há 305 anos o recorde do serviço hidrográfico mais antigo do mundo — à frente do Reino Unido

José Fonseca

10 de Março, 2026

A França preserva um serviço hidrográfico de Estado com 305 anos, um feito que a coloca à frente do Reino Unido e de outras potências, e ancora uma ambição naval de escala global. Em torno de 11 milhões de km² de ZEE, a cartografia, a modelagem e a previsão do oceano são o alicerce de uma presença marítima estável e, sobretudo, soberana. Ao mesmo tempo discreto e indispensável, o SHOM combina ciência, defesa e políticas públicas para transformar dados em decisão, e riscos em planejamento.

Um pilar discreto, decisivo

Desde 1720, o SHOM coleta, valida e difunde a referência oficial para navegação, náutica e gestão costeira, servindo tanto marinheiros civis quanto as Forças Armadas. A continuidade institucional é notável: o serviço francês antecede o UK Hydrographic Office, criado apenas em 1795. A longevidade importa porque cria um acervo coerente, base de comparação robusta para tendências marinhas e para a segurança das rotas.

  • Hidrografia nacional: cartas, profundidades, perigos e atualizações para navegação segura.
  • Apoio à Defesa: dados para operações, sistemas de armas e conhecimento fino do fundo oceânico.
  • Políticas públicas: erosão costeira, riscos, ordenamento e adaptação às mudanças climáticas.

Da gravura em cobre aos drones

A instituição nasceu como “Depósito de Cartas e Planos da Marinha”, evoluiu para Serviço Hidrográfico em 1886 e incorporou a oceanografia em 1971, ampliando escopo para marés, correntes e meteorologia marinha. Em 2007, tornou-se um estabelecimento público, atualizando a governança sem alterar a missão nuclear do Estado no mar. O fio condutor é simples e poderoso: conhecer o mar para torná-lo mais seguro e mais compreensível para todos os usos.

Robôs e algoritmos no convés

A virada tecnológica recente acelera a coleta e a análise com plataformas autônomas, sensores densos e processamento automatizado. O DriX H-9, da francesa Exail, mapeia com precisão, opera em dupla com navios ou de forma autônoma, reduzindo custos e ampliando cobertura. Já o NemoSens, da RTSys, é um microdrone subaquático para áreas rasas e sensíveis, onde a presença humana é cara, lenta ou arriscada.

Esses meios juntam-se ao DriX H-8 “Marlin” e serão acompanhados pelo AUV Hugin Superior, de 6.000 m, ampliando alcance e profundidade de coleta. O objetivo é passar de campanhas pontuais para uma vigilância quase contínua, com séries temporais longas e uma malha espacial mais densa. A inteligência artificial entra para triagem de volumes maciços, correção batimétrica e modelagem preditiva de fundos e litorais.

Dados como soberania

Cerca de 95% do tráfego global de dados cruza cabos submarinos, e áreas econômicas concentram recursos energéticos, minerais e pesqueiros. Em tal contexto, depender de dados alheios cria vulnerabilidade estratégica e limita a capacidade de resposta. Ao dominar sua cadeia de medição, do sensor ao modelo, a França reforça autonomia de decisão e resiliência de suas infraestruturas.

Ciência aplicada ao cotidiano

As cartas atualizadas salvam vidas, evitam encalhes e otimizam rotas, reduzindo emissões e custos para a marinha mercante. Modelos de marés, correntes e ondas fundamentam operações portuárias, pilotagem e planejamento de dragagens. No litoral, séries históricas suportam políticas de recuo estratégico, proteção de obras e vigilância de tempestades costeiras.

O valor do tempo longo

Três séculos de medições permitem distinguir variações naturais de tendências estruturais, um ativo essencial em tempos de mudança climática. A coerência metodológica e a rastreabilidade dos dados favorecem comparações internacionais e padrões abertos. Esse “capital temporal” é insubstituível e multiplica o valor de cada nova linha de som ou de cada feixe multifeixe.

Ecossistema industrial e inovação

A parceria com fornecedores nacionais e europeus dinamiza um ecossistema de altíssima tecnologia, do posicionamento inercial à acústica subaquática. Drones, software, fusão de dados e ciberproteção formam um conjunto integrado, projetado para operar com segurança e eficiência. O resultado é uma cadeia curta, auditável e alinhada com requisitos de Defesa e civis.

Formação e partilha

Ao lado da medição, vem a pedagogia: guias, padrões e dados abertos alimentam universidades, startups e administrações. A interoperabilidade com serviços homólogos fortalece a segurança coletiva e a navegação global. Ainda assim, o núcleo crítico permanece sob controle nacional, equilibrando abertura científica e soberania.

“Conhecer o mar é poder planejar, proteger e prosperar.”

O que vem a seguir

Com plataformas autônomas e IA, o próximo salto é transformar séries massivas em alertas quase em tempo real, do porto ao alto-mar. O SHOM avança para uma malha digital do oceano, viva, revisável e confiável, capaz de antecipar riscos e orientar grandes investimentos. Em silêncio e com precisão, é assim que a França sustenta a sua vocação marítima — feita de ciência, de continuidade e de dados que viram poder.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.