Uma das descobertas mais importantes da Europa: pegadas de dinossauros ressurgem na Itália

José Fonseca

13 de Março, 2026

Rastros de dinossauros revelados nos Alpes italianos, numa encosta hoje quase **vertical**.

Os Alpes italianos revelaram um segredo guardado por mais de 200 milhões de anos, com a reemergência de extensos rastros de dinossauros. As marcas, preservadas em rochas dolomíticas do Triássico Superior, formam um dos conjuntos mais vastos da Europa. A descoberta anima a comunidade científica e reacende o debate sobre proteção, turismo e divulgação.

Um arquivo vivo nas montanhas

O achado ocorreu no Parque Nacional do Stelvio, entre Bormio e Livigno, área que em breve acolherá provas dos Jogos Olímpicos de Inverno. São “avenidas” de pegadas que se estendem por centenas de metros, com contornos nítidos de dedos e garras. Segundo os investigadores, trata-se de um património de enorme relevância para entender ecologia e comportamento de dinossauros.

“É como folhear um ‘livro de pedra’”, afirma o geólogo Fabrizio Berra, sublinhando a oportunidade de acompanhar camadas sobrepostas ao longo do tempo. Para além da beleza do registo, a descoberta oferece pistas sobre ambientes antigos e migrações coletivas. O conjunto torna mais palpável a dinâmica de um planeta em transformação.

Como as pegadas se formaram e regressaram à luz

As marcas foram moldadas em lamas finas, saturadas de água, que ladeavam o antigo oceano Tétis. A plasticidade daquela lama calcária preservou detalhes anatómicos, como impressões de dedos e garras muito marcadas. Depois, novas camadas sedimentares selaram o “instantâneo” por milhões de anos.

O levantamento alpino e a erosão das encostas trouxeram as pegadas novamente à superfície, expondo painéis inteiros de trilhos. Hoje, parte do conjunto fica fora dos trilhos convencionais e, no inverno, permanece sob neve. A reexposição cria uma janela rara, mas exige medidas de proteção e monitorização.

O que os rastros contam sobre os dinossauros

A maioria das pegadas é alongada, atribuída a animais bípedes de grande porte. O padrão mais frequente aponta para prosaurópodes, herbívoros de pescoço longo, antecessores dos imponentes saurópodes do Jurássico. Algumas marcas atingem cerca de 40 centímetros de diâmetro, sugerindo indivíduos adultos.

Há trilhos paralelos que revelam deslocações sincronizadas, indício forte de comportamento gregário. Também surgem arranjos circulares, possivelmente estratégias de defesa coletiva em momentos de alerta. Embora dominem os herbívoros, não se exclui a presença de predadores ou arcossauros, parentes antigos dos crocodilos.

Principais dados da descoberta

  • Localização: Parque Nacional do Stelvio, nos Alpes da Lombardia.
  • Idade: Triássico Superior, cerca de 210 milhões de anos.
  • Extensão: centenas de metros de trilhos bem preservados.
  • Morfologia: impressões com dedos e garras nítidas.
  • Provável autoria: prosaurópodes bípedes de grande porte.
  • Contexto geológico: rochas dolomíticas, antigas vasiarias costeiras.

Ciência, turismo e proteção

A espetacularidade do sítio pode atrair grande público, impulsionando economia e turismo de natureza. Contudo, o afluxo descontrolado ameaça a integridade das pegadas, que são vulneráveis a pisoteio e intempéries. Autoridades e investigadores discutem acesso regulado, passarelas e sinalização.

Para a comunidade académica, o objetivo imediato é mapear cada trilho com fotogrametria e laser 3D, criando um modelo digital de alta resolução. Esses dados permitirão análises de biomecânica, direção de deslocamento e variações temporais entre camadas superpostas. Paralelamente, propõem-se ações de conservação e educação científica.

Uma janela para o Triássico

No Triássico tardio, a região era um mosaico de lamas costeiras, sob clima tropical e ciclos de maré amplos. Cada pegada é um instante congelado de passada, peso e ritmo, que conecta o presente à vida num planeta primitivo. Ao lê-las em sequência, percebe-se a coreografia de rebanhos, pausas e arranques.

Esse “livro” sedimentar combina tempo profundo e detalhe minucioso, algo raro mesmo em sítios de classe mundial. A convergência entre geologia, paleontologia e tecnologia transforma o local num laboratório natural de primeira linha. E confirma a Itália como referência europeia no estudo de icnofósseis.

Detalhes de pegadas triássicas em rocha dolomítica
Detalhes preservados em rocha **dolomítica**, com dedos e **garras** visíveis.

Próximos passos

As equipas planeiam publicar um catálogo comparativo, integrando medidas, orientações e morfotipos em bases de dados abertas. Com isso, será possível cruzar informações com outros sítios do Mediterrâneo antigo e testar hipóteses sobre rotas, sazonalidade e ecossistemas. A prioridade, porém, é garantir proteção legal e manutenção contínua.

Se bem preservadas, as pegadas poderão sustentar um itinerário educativo exemplar, unindo ciência rigorosa e acesso responsável. Do silêncio das montanhas emerge uma narrativa de escala continental, escrita a passos largos por animais que moldaram a história da vida. E cada nova medida acrescenta uma linha a esse manuscrito de rocha.

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.