ENTREVISTA

Ana Paula Russo

ANA PAULA RUSSO - «MELODIA SENTIMENTAL»

ENTREVISTA

ABRIL/2006

A soprano Ana Paula Russo, uma das artistas com maior grau de progressão na cena lírica portuguesa da actualidade, lançou um disco, «Melodia Sentimental», com temas de Manuel de Falla, Heitor Villa-Lobos, Alberto Ginastera, Laurindo Almeida, Adolfo Guzman e Miguel Matamoros, entre outros, sobre poemas de Manuel Bandeira, Fernando Pessoa ou Frederico Garcia Lorca, recriados e interpretados com mestria pelo guitarrista cubano Carlos Gutkin. Em entrevista ao nosso jornal, a talentosa solista, nascida em Beja e formada na Escola Superior de Música de Lisboa, tendo também estudado em Salzburg (Áustria) e Luzern (Suíça), falou-nos deste seu último trabalho e da forma como enveredou por uma carreira ligada ao «belo canto».

INSIDE – Como surgiu a ideia deste disco?
ANA PAULA RUSSO – Desde 1996 que eu e o Adolfo Gutkin realizámos mais de 20 concertos em todo o território nacional, em festivais e outros eventos, com dois programas diferentes: um «Recital de Natal», no qual interpretámos Canções Populares de diversos países, Canções de Natal e Espirituais Negros, e um Recital de Música íbero-Americana, pelo que foi a partir desta enriquecedora experiência que nasceu a ideia de prepararmos este trabalho discográfico, que contou com o inestimável apoio do técnico de som José Fortes.
Dos concertos que realizámos ao longo de todos estes anos gostaria de destacar as actuações no Palácio Foz, em 1997, no Museu da Fundação Gulbenkian, em 1998, e na abertura do 24º Festival de Música do Algarve, em 2001.

INSIDE – Que aspectos gostaria de realçar nesta composição a que deu voz, através do suporte melódico e instrumental de Adolfo Gutkin?
ANA PAULA RUSSO – Recuperando o texto inserto na capa do disco posso dizer que esta edição presta homenagem à cultura e às línguas portuguesa e espanhola, utilizadas nos nossos dias por centenas de milhões de pessoas, em canções de alguns dos seus criadores musicais mais destacados.
A variedade, a riqueza rítmica e melódica, a elevada inspiração, o cuidado harmónico das composições e dos arranjos, são testemunho do refinamento poético e da mestria dos compositores, dando às canções contempladas neste disco, uma dimensão mais profunda, que inunda, com um olhar terno e amoroso, um repertório sedutor e de grande sensibilidade poética.

INSIDE- Gostaríamos de perguntar-lhe que influência teve na sua opção artística, o seu pai, o famoso Alonso – baterista e vocalista do inesquecível grupo de baile Pax-Júlia, que, nos anos 50 e 60 do século passado, marcou sucessivas gerações de alentejanos e não só, já que actuava em todo o País?
ANA PAULA RUSSO – Como é natural, o meu pai é um ser fundamental na minha existência e na minha essência. Desde pequenina, sempre foi natural ouvi-lo cantar e eu a cantar com ele. Conheço todo o repertório de música ligeira de salão porque o cantava com o meu pai – faz parte da minha memória, cresci no meio da música, do ritmo, das canções. Aos quatro anos já dizia que queria ser cantora de ópera, mas ninguém parecia entender o porquê desta minha opção, e, mais tarde, tudo aconteceu um pouco por acaso, mas, na verdade, e olhando para trás, recordo-me que sempre tive uma facilidade e rapidez de aprendizagem pouco vulgares nesta área – está-me certamente nos genes!

INSIDE – Sendo natural de Beja, o cante alentejano emociona-a?
ANA PAULA RUSSO – Recordo que a minha canção de embalar preferida em bebé, ainda em Beja, era o «Baleizão, Baleizão, Terra Baleizoeira» e que não adormecia sem a minha avó a cantar, pelo que a partir desta memória está bem explícita a minha paixão umbilical pelo cante alentejano. Ainda agora, quando me junto em família acabamos todos sempre a cantar «à alentejana». Considero mesmo que as melhores vozes naturais de Portugal se encontram no Alentejo (foi de lá que vieram, por exemplo, Tomás Alcaide, Luís Piçarra, Tonicha, Paco Bandeira, Francisco José, Luísa Basto, Francisco Naia). O que é compreensível, visto o folclore da região ser fundamentalmente cantado, e não dançado, e as pessoas fazerem segundas e terceiras vozes de forma instintiva






Autor: Manuel Geraldo
Data: ABRIL/2006



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