Investigadores do Porto desenvolveram um material que promete mudar a construção em Portugal

José Fonseca

14 de Agosto, 2026

Um projeto nascido no norte do país está a ganhar tracção entre engenheiros, arquitetos e empresas de construção. O novo compósito, leve e resistente, foi concebido para reduzir a pegada carbónica e acelerar obras, sem comprometer a durabilidade. Segundo a equipa, testes em condições reais confirmaram desempenho superior em estrutura, isolamento e comportamento ao fogo.

“Com este material, conseguimos unir baixo impacto ambiental a altíssima performance”, diz a investigadora principal, sublinhando que a solução é “compatível com processos de fabrico já existentes”, algo raro em inovações de materiais.

A proposta surge num momento em que o setor procura respostas para metas climáticas e para a escassez de mão de obra qualificada. “Precisamos de construir mais rápido, com menos desperdício e maior qualidade”, resume um diretor técnico de uma grande construtora nacional.

Do laboratório à obra: o que torna o compósito diferente

O compósito combina um ligante de base alcalina com agregados de origem circular, incluindo frações de cortiça técnica e subprodutos industriais estabilizados. O resultado é uma matriz densa, mas surpreendentemente leve, com ligações químicas que conferem menor permeabilidade e excelente adesão a armaduras.

Graças a aditivos de cura rápida e microfibras funcionais, o material apresenta elevada tenacidade e controla a formação de fissuras finas. Em painéis pré-fabricados, obteve valores de condutividade térmica reduzidos, permitindo paredes mais esbeltas sem perder desempenho acústico.

“Optámos por ingredientes disponíveis em Portugal, reduzindo dependências de importação e custos logísticos”, afirma um dos engenheiros do núcleo de desenvolvimento. “A presença de cortiça não é folclore: melhora o isolamento e contribui para a elasticidade.”

Menos carbono, mais circularidade

Os investigadores destacam uma redução significativa na intensidade carbónica face a betões convencionais, graças ao menor teor de clínquer e ao uso de matérias-primas recicladas. Os ensaios de ciclo de vida apontam para ganhos expressivos quando aplicados em sistemas pré-fabricados e reabilitação urbana.

Além disso, o compósito foi desenhado para desmontagem e reciclagem no fim de vida, facilitada por conetores reversíveis e formulações que permitem reprocessamento controlado. “Circularidade não é um apêndice; é parte do DNA do sistema”, reforça a coordenadora de sustentabilidade.

Um fabricante de pré-fabricados do norte confirma o potencial: “A linha-piloto mostrou ciclos de cura mais curtos e menos energia no processo. Se mantivermos estas métricas em escala, o impacto será tangível na nossa conta de resultados.”

Da fundação ao telhado: onde pode ser aplicado

O material foi validado em elementos estruturais e não estruturais, com foco em préfabricação modular e reabilitação de edifícios existentes. A compatibilidade com técnicas de impressão 3D abre a porta a soluções rápidas de infraestrutura ligeira e habitação de emergência.

Principais aplicações previstas:

  • Painéis sandwich com alto desempenho térmico e acústico
  • Lajes e vigas pré-esforçadas de baixa massa volúmica
  • Revestimentos projetados para reabilitação e reforço sísmico
  • Elementos impressos em 3D para construção modular

Uma arquiteta portuense vê vantagens na liberdade formal: “A fluidez reológica controlada permite peças mais delicadas e menos espessas, sem sacrificar robustez. É uma paleta nova para quem desenha com luz e matéria.”

Desempenho que convence

Nos ensaios de durabilidade, as amostras mantiveram resistência mecânica elevada após ciclos de húmido-seco e exposição a névoa salina, fator crítico em zonas litorais. O comportamento ao fogo excedeu requisitos regulamentares, retardando a propagação de chama e reduzindo fumos tóxicos.

Um aspeto distintivo é a capacidade de “auto-cicatrização” microfissural induzida por aditivos minerais ativados pela humidade, que limitam a penetração de água e aumentam a vida útil. “Isto traduz-se em menos manutenção e custos operacionais baixos”, salienta o responsável de ensaios.

Custos, prazos e adoção no mercado

Apesar da tecnologia, o custo por metro cúbico pretende alinhar-se com soluções de gama média. A poupança surge na obra: ciclos de cura encurtados, peças mais leves e logística simplicada permitem reduzir prazos e equipamentos.

Para facilitar a adoção, a equipa trabalhou em guias de execução, detalhes de ligação e especificações abertas para concursos públicos. Estão em curso processos de certificação e homologação, além de parcerias com municípios para projetos-piloto de habitação acessível.

“Queremos que qualquer empreiteiro local consiga aplicar o sistema sem curva de aprendizagem dolorosa”, garante a direção técnica. “A democratização da inovação é tão importante quanto a inovação em si.”

O que vem a seguir

Os próximos meses trarão produção em escala pré-comercial, monitorização em obra e abertura de um hub de formação no Grande Porto. A investigação continua em formulações com ainda menos carbono, maiores teores de material reciclado e integração de sensores para monitorização estrutural.

Num setor por vezes avesso a mudança, a combinação de desempenho, sustentabilidade e praticidade cria um sinal difícil de ignorar. Como disse um empreiteiro após o primeiro protótipo: “Se construirmos melhor, mais rápido e com menos impacto, não é apenas uma evolução — é o novo padrão.”

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.