A Arábia Saudita está a construir uma cidade em linha reta com mais de cem quilómetros

José Fonseca

27 de Agosto, 2026

No noroeste do reino, entre montanhas e o Mar Vermelho, ergue-se uma visão urbana que desafia mapas e hábitos. Um traço contínuo atravessa o deserto, condensando funções da vida moderna num eixo estreito e alto.

A promessa é audaz: compressão radical do espaço, mobilidade integrada e energia limpa, tudo num corredor que ambiciona redefinir o que chamamos de cidade.

Uma visão que comprime a cidade

A proposta combina densidade com natureza, empilhando bairros em camadas verticais e mantendo serviços essenciais a poucos minutos de casa.

“Uma cidade sem carros, sem ruas, sem emissões”, repete o material promocional, sublinhando uma ambição de circularidade e eficiência.

A estrutura estreita pretende reduzir deslocações, transformando trajetos diários em percursos de andar ou de poucos minutos num transporte central de alta velocidade.

Como isso funcionará na prática

O eixo central abrigará um trem de alta capacidade que liga bairros em minutos, prometendo cruzar todo o trecho em cerca de vinte minutos.

Corredores logísticos e núcleos de serviços serão “espinhas dorsais” invisíveis, levando entregas, resíduos e manutenção sem fricção para não interromper a vida urbana.

A estratégia climática aposta na forma do “cânion”, com sombreamento, ventilação e controle digital para manter um microclima mais ameno sob calor extremo.

“Queremos que as pessoas tenham tudo a quinze minutos”, dizem os proponentes, ecoando a ideia de proximidade que sustentou a evolução do urbanismo do século.

Dimensão, energia e materiais

A faixa pretende abrigar milhões, comprimindo pegadas e otimizando infraestruturas que, espalhadas, custariam mais e emitiriam ainda mais carbono.

Energia 100% renovável é parte do compromisso, combinando solar, eólica e hidrogénio verde, além de dessalinização eficiente para garantir água no deserto.

A construção modular e o uso de materiais de baixo carbono tentam reduzir impactos, embora a escala imponha perguntas sobre extração e logística.

Estima-se um investimento gigantesco, com números que chegam às centenas de milhares de milhões de dólares, refletindo a ambição e o risco do empreendimento.

Vida e trabalho ao longo do eixo

Escolas, clínicas, parques, cultura e comércio ficarão a caminhar de casa, reduzindo deslocamentos e liberando tempo para o que é realmente importante.

A promessa é uma rotina mais lenta, ainda que altamente conectada, com serviços sob demanda e espaços públicos sombreados que convidam a ficar.

“A tecnologia deve desaparecer no pano de fundo”, defendem designers, para que a experiência pareça natural, humana e acessível.

  • Mobilidade central de alta capacidade; bairros empilhados; energia renovável e água dessalinizada; serviços em camadas; IA para operação e conforto ambiental.

Território, cultura e empregos

O traço linear cruza paisagens ricas e sensíveis, exigindo diálogo com comunidades locais e respeito a tradições que datam muito antes do projeto.

Programas de capacitação prometem empregos em tecnologia, construção e turismo, buscando diversificar uma economia historicamente ancorada em hidrocarbonetos.

Criar um novo polo de inovação requer mais que prédios: precisa de tecido social, governança aberta e cultura que convide gente a ficar.

Críticas, riscos e impactos

Especialistas alertam para riscos de desalojamento, impactos sobre fauna e rotas migratórias, além de possíveis colisões de aves com fachadas espelhadas e massivas superfícies de vidro.

Há dúvidas sobre custos, prazos e manutenção de um corredor tão longo, que deve operar como relógio sob poeira, salinidade e calor intenso.

A promessa de automação total levanta questões de privacidade, governança de dados e resiliência diante de falhas que podem ser sistémicas e amplas.

“Haverá iterações, recuos e protótipos”, admitem defensores, reconhecendo que a primeira versão nunca será a última, sobretudo nesta escala.

O estado das obras e o caminho adiante

As obras iniciais estão em andamento, com frentes de fundação, acessos e módulos piloto, enquanto metas e cronogramas são ajustados a partir do aprendizado.

Relatos apontam para uma implementação faseada, começando com segmentos prioritários e expansão progressiva conforme mercado, regulação e tecnologia amadurecem.

A atenção internacional é intensa: investidores, pesquisadores e cidades observam se a compressão linear entrega qualidade de vida, viabilidade financeira e benefícios ambientais.

Se der certo, o modelo pode inspirar tipologias compactas em regiões costeiras, corredores ferroviários e reconversões urbanas em áreas de risco, adaptadas ao contexto.

Se falhar, ainda deixará lições sobre limites de densidade, infraestrutura crítica e a importância do território como protagonista de qualquer plano.

No fim, por trás do brilho das renderizações, a questão é simples e humana: será que viver lado a lado, em linha, pode ampliar nosso tempo e reduzir nosso desgaste diário? “Construir melhor é possível”, dizem os otimistas; “o desafio é provar que o futuro cabe, com qualidade, num traço tão fino quanto longo.”

José Fonseca

José Fonseca

Sou o José, redator do Jornal Inside e apaixonado por tudo o que envolve música, cinema e cultura pop. Gosto de transformar tendências e bastidores em histórias que prendem o leitor. Escrevo para que cada notícia seja uma porta aberta para o universo vibrante do entretenimento.