No set de um novo drama português, uma protagonista em ascensão decidiu abrir o jogo. Entre confidências, ela revelou a ferida que mais custou a fechar: uma cena que a obrigou a encarar o próprio limite. Com voz calma e um brilho inquieto nos olhos, contou como a arte a levou ao lugar onde o corpo e a mente se testam de verdade.
O filme chama-se Areia Fria, e a rodagem percorreu falésias, praias e armazéns salinos da costa atlântica. À frente do projeto, o realizador Miguel Tavares quis uma história sobre perda, culpa e a possibilidade de recomeço. A atriz, Inês Duarte, trouxe ao papel uma entrega que surpreendeu até os seus pares.
A cena que a mudou
A sequência mais temida era noturna, filmada em mar aberto, com corrente traiçoeira e água a 12°C. Inês precisava mergulhar, presa a uma velha rede de pesca, enquanto a câmara acompanhava, num plano longo e sem cortes. O texto pedia que ela ficasse entre o pânico e a entrega, à beira de se deixar afundar.
“Jurei que não ia conseguir, e no entanto vi-me ali, a dois metros de profundidade, a negociar cada segundo com a respiração”, contou a atriz. Segundo ela, a cena condensava o luto da personagem e um medo íntimo, guardado desde a infância. “O mar sempre foi belo e ameaçador para mim. Nesse momento, deixou de ser cenário e tornou-se espelho.”
Treino, medo e técnica
Para chegar lá, houve meses de preparação. A produção contratou uma equipa de mergulho livre, uma dupla de dublês aquáticos e um fisiologista para monitorizar saturação de oxigénio. Inês treinou apneia, focalização e controle de pulsação, com exercícios que simulavam a sensação de afogamento de forma segura.
O coordenador de stunts descreveu a rotina como um ritual de “exposição gradual ao desconforto”, nunca romanticizada, sempre com rotas de escape. Havia sinalização com cordas, pontos de resgate e aquecimento entre cada take. Ainda assim, a parte que mais doeu foi a que não se vê: lidar com o medo que insiste em falar alto.
Principais desafios citados por Inês:
- Frio intenso que adormecia as mãos e atrasava a reação do corpo.
- Ruído mental que sabotava a concentração a cada nova tentativa.
- Precisão técnica para alinhar respiração, marcação de luz e tempo de câmara.
No set, entre silêncio e sal
Na noite decisiva, o mar parecia uma placa de ardósia, refletindo focos que vinham de uma grua. “Precisávamos capturar o instante em que o medo vira verdade”, lembrou Miguel Tavares. O diretor de fotografia, Rita Lobo, afinou uma luz que vibrava como farol ao longe, cortando o breu com respeito.
“Quando prendi os dedos à rede, o som morreu”, disse Inês, revendo o instante em que o plano começou a corrigir o seu rumo. “Não ouvia motor de barco, nem walkie-talkies, só o meu coração a pedir para subir e a cena a mandar ficar.” O take durou longos 78 segundos, num equilíbrio tenso entre o gesto e a vulnerabilidade.
O colega de cena, Tomás Reis, esperava na margem, pronto para uma marca que exigia sincronismo de respiração. “Vi a Inês a sair da água com os lábios roxos, e soube que tinha acontecido algo raro. Não era só representação, era verdade pura”, contou, ainda com uma ponta de assombro.
O eco depois do corte
Apesar da exaustão, houve um silêncio de respeito antes do aplauso discreto da equipa. Miguel aproximou-se e sussurrou: “Já temos.” Inês, tremendo, assentiu com um sorriso mínimo, a espécie de vitória que só quem viu o abismo por perto reconhece.
Dias depois, na sala de montagem, a cena pedia quase nada de retoques. A respiração captada pelo micro interno misturou-se com o som grave da maré, criando um pulso orgânico, meio animal. A voz-off foi gravada com a mesma cadência, preservando o “ar a acabar” que a atriz tinha ensaiado ao limite do conforto.
“Não quero que romantizem o risco”, disse Inês, quando lhe perguntaram se faria tudo de novo da mesma forma. “Quero que vejam o cuidado que nos protegeu, e como a coragem só existe quando há rede.” A frase circulou pelas redes, lembrando que autenticidade e segurança não são inimigas, são irmãs de trabalho.
O que esta travessia lhe ensinou
Desde então, a atriz fala de trabalho com nova clareza. Aprendeu a negociar com o próprio ego, a pedir ajuda sem sentir que perdia o piso, a entender que um bom não também protege um bom sim. E confessa que agora escolhe projetos que combinem risco com apoio, ousadia com responsabilidade.
“Se a arte não me mexer com o pulso, prefiro passar”, diz, rindo com aquela leveza que vem depois da tempestade. Os festivais já marcam o filme para sessões de estreia, e a crítica sussurra sobre uma interpretação de entrega rara. Inês ouve, agradece e volta ao que a trouxe até aqui: o trabalho, a curiosidade, a vontade de ficar inteira, mesmo quando a água puxa para baixo.
