AMÉLIA MUGE em entrevista

AMÉLIA MUGEAmélia Muge – “1 Autora – 202 Canções”

Compositora de poemas transformados em acordes musicais e instrumentista, Amélia Muge apresentou uma reeleição de músicas no espectáculo “1 Autora – 202 Canções”, em Dezembro, no Centro Cultural de Belém (CCB). Desde 1992, altura do lançamento do seu primeiro trabalho intitulado “Múgica”, Amélia Muge conta já com 202 registos musicais. Muitos deles revelam a tradução musical de poemas escritos pela própria Amélia Muge e, outros, são poemas reeleitos de nomes tão soantes da poesia tais como Cesário Verde, Fernando Pessoa, Luis de Camões, José Afonso, entre outros.

Falámos com 1 Autora – Amélia Muge- sobre este concerto no CCB, que contou com as participações especiais de Ana Moura e Gaiteiros de Lisboa para darem voz a algumas das composições e poesias de Amélia Muge.
Vê aqui a entrevista.

INSIDE: Como é que surgiu este concerto “1 Autora – 2002 Canções”?

Amélia Muge: Surgiu da sugestão do António Cunha da UGURU, de fazer um trabalho, que começaria por um concerto evidenciando o meu lado de autora compositora .
Este foi o ponto de partida. O ponto de chegada foram as canções seleccionadas, os arranjos do José Martins, Filipe Raposo e José Manuel David, os convidados, as ambiencias, enfim,tudo o resto que faz com que o
público veja de um espectáculo, apenas a ponta de um grande iceberg.

INSIDE: As canções de Amélia Muge surgem sempre associadas à poesia, quer da
própria Amélia quer de poetas como Cesário Verde, Fernando Pessoa,
entre outros tão conhecidos da cultura portuguesa. Porquê este encontro?

AM: Mais do que os poetas, os textos, ou poemas, ou temas, embora haja poetas que seleciono mais do que outros. Não há um porquê. Há um conhecimento que
leva depois á vontade de cantar esses poemas que tanto gosto e que estimulam o meu imaginário poético, musical e não só.

INSIDE: O cruzamento de diversas formas musicais, literárias e culturais fazem da Amélia uma cantora diferente, com características muito próprias e
exigentes. Gosta de ser reconhecida desta forma?

AM: Gosto de partilhar com os outros as coisas que gosto. Sejam minhas ou não. Gosto da exigencia quando a vejo nos outros estimulando, claro, a minha. Mas sobretudo gosto dos resultados dessa exigencia transformados em qualquer coisa que é uma maravilha para os sentidos, para a emoção e para a razão.

INSIDE: O que é que acha que, em termos musicais, distingue a tradição da
modernidade e o erudito do popular?

AM: Em primeiro lugar, é o significado que esses termos têm para as pessoas que vai formando uma distinção. Depois as vivencias de cada um. É claro que se tiver apenas uma vivencia escolástica que divide tudo por estilos e épocas, a sensibilidade das pessoas será uma. Se se desconhecer por completo as músicas, os músicos, as épocas, que estão na base do sentido comum atribuído a qualquer destes conceitos, ou se se tiver um reportório
muito limitado a partir do qual se atribui um significado a estes termos, a sensibilidade será outra. Se se considerar que o que existe à partida é uma matéria musical que se vai ³animando² de diversas formas ao longo do tempo , estes termos são apenas instrumentos cómodos a partir dos quais são possíveis todas as interacções.Possíveis. Não estou a dizer desejáveis e muito menos que isso pode ser feito de qualquer maneira.

INSIDE: Trazer para palco as 202 canções de Amélia, numa só noite, seria uma concretização difícil. Acha que foi mais difícil fazer a selecção das canções para este concerto no CCB?

AM: Não foi por ser difícil que não trouxe as 202 canções para o palco. Foi, à partida, porque não via nisso interesse nenhum. .. Uma selecção é sempre
uma selecção possível. Como não se tratava de seleccionar uma meia dúzia de canções que poderiam ser consideradas ” as melhores” para a posteridade, as
opções foram um pouco partilhadas por mim e pelos arranjadores, a partir de 3 critérios principais: representar os meus álbuns, evocar intérpretes
para quem já compus e previligiar canções com música e texto meus. Depois acrescentaram-se dois originais e as excepções que justificaram a regra.

INSIDE: Como é o Mundo de Amélia Muge?

AM: Não é deste mundo. Como o mundo de muitos.

INSIDE: E neste Mundo, nesta vivência, há espaço para que a Amélia consiga surpreender ainda mais com mundos musicais tão diferentes?

AM: Não sei. Sei que há espaço para eu conseguir surpreender-me e sobretudo entrar na “extra-terrestrice” dos que amo.

INSIDE: Este concerto contou com as participações especiais de Ana Moura e Gaiteiros de Lisboa. Como é que surgiram estes convites?

AM: A Ana ainda não gravou ainda outro disco. Logo, o tema que ela canta de minha autoria, O Fado da Procura, ainda é muito recente. Não me parecia bem estar a cantá-lo. Logo, nada melhor do que convidá-la a fazê-lo. Para
os Gaiteiros, só participei com textos nos temas deles. Não me pareceu interessante estar a fazer arranjos musicais para estes temas. Logo, seria óbvio também o convite. Ainda por cima, adoro o trabalho quer da Ana quer
dos Gaiteiros e adoro cantar com eles.

INSIDE: Na actuação no CCB, Amélia Muge falou do trabalho de Ana Moura revelando uma identificação com esta artista. Porquê esta identificação?

AM: A Ana é, de entre os fadistas mais novos, alguém sem preconceitos. Aberta a propostas muito variadas, sem deixar nunca de ser quem é e de cantar do modo como canta. Isto, ultrapassa os aspectos musicais. Tem a ver como uma certa forma de estar e sentir a música, em qualquer situação.

INSIDE: E cada canção obrigaria mesmo a falar de uma pessoa?

AM: Não sei o porquê desta pergunta. As canções falam ou evocam muita coisa. São de muitas pertenças . Os seus autores são apenas uma das pertenças.
Concretamente no CCB se falei dos autores ou intérpretes foi porque não havia um programa de sala com informação sobre os temas e muitas das pessoas poderiam erradamente assumir, por ex. que todos os textos eram meus, e que alguma canção em especial estaria num disco meu e não num dos intérpretes para quem compus.

INSIDE: O que é que acha que ³as mil cabeças² presentes neste concerto no CCB teriam a dizer, de uma forma geral, deste espectáculo?

AM: Mil coisas ou mais, se cada uma tivesse mais do que uma coisa a dizer.

Autor: Marisa Antunes